Quem não se lembra da icônica Rainha Vermelha de Lewis Carroll? No filme “Alice Através do Espelho”, ela dá à protagonista um conselho que parece sob medida para o mundo de hoje: “aqui é preciso correr o máximo que se pode para permanecer no mesmo lugar”. Pois é mais ou menos essa a sensação de quem trabalha em uma empresa em transformação permanente. Mal a equipe respira depois de uma reestruturação, já chega uma nova ferramenta. Quando começa a se adaptar, a prioridade muda. E, em um piscar de olhos, a inteligência artificial aparece para reorganizar tudo de novo. Se a mudança já não tem começo, meio e fim, a comunicação interna também não pode continuar tratando cada transformação como uma campanha isolada. Já não basta anunciar o que mudou: é preciso ajudar as pessoas a compreenderem esse movimento para, assim, poderem seguir com confiança.
A bem da verdade, o problema raramente está na falta de informação, mas no excesso de mensagens soltas. Não basta trocar o banner, repaginar a intranet e cruzar os dedos para que a mensagem “cole”. Sem um fio condutor, cada decisão nova chega como se fosse a primeira, desconectada da anterior, e o colaborador passa a viver como se a empresa mudasse de direção toda semana.
Organizando a travessa
É por isso que, nesse cenário tão sobrecarregado, em que a mudança faz parte da rotina, a comunicação interna ganha uma função bastante decisiva: organizar a travessia. Isso significa criar contexto, separar o que é estrutural do que é ajuste de rota, reduzir a ansiedade e devolver às pessoas algo fundamental em meio à turbulência: a percepção de que o caminho, mesmo que sinuoso, ainda faz sentido.
Mas o que acontece quando a organização começa a enxergar essas transformações como uma jornada contínua? Muda tudo, inclusive o lugar que a comunicação interna ocupa. Ela passa a criar contexto em vez de só informar, dar clareza ao caminho, conter o ruído, reforçar o que permanece, preparar as lideranças e, no fim, transformar a incerteza em “capacidade de navegação”. Foi sobre essa travessia que conversamos com quatro executivos que vivem esse dilema na prática.
Um ciclo que nunca fecha
A primeira virada é mental. Antes de mudar canais ou formatos, é preciso abandonar a fantasia de que a transformação cabe em um cronograma fechado. Isa Correia, diretora de Marketing e Comunicações da Seguros SURA Brasil, observa que essa busca por encaixar tudo em datas é, em si, parte do engano. “No mundo corporativo, existe uma tentativa constante de encaixar transformações em cronogramas rígidos. Mas a verdade é que as mudanças sempre fizeram parte da rotina organizacional”, pondera. Para ela, a consequência disso é direta: em vez de se limitar à lógica de campanhas pontuais, a comunicação deve atuar como facilitadora de sentido, ajudando o colaborador a entender não apenas o que está em jogo, mas por que aquilo importa e quais elementos continuam servindo como base.

da Seguros SURA Brasil
O que Isa propõe é uma mudança de foco: sair do “quando termina?” para o “por que estamos fazendo isso?”. “Poucas transformações têm um ciclo fechado. Começamos, ajustamos no caminho, seguimos, aprendemos, recalibramos. Muitas vezes, quando achamos que concluímos uma etapa, percebemos que uma nova fase já começou”, reflete. E, se a mudança é inevitável, a comunicação interna não pode se limitar a cumprir calendário, como se bastasse comunicá-la, quando o que realmente importa é dar sentido ao propósito por trás de cada decisão. “Quando a clareza de direcionamento existe, até a percepção do tempo de transição e o nível de resiliência das equipes se transformam”, crava. Essa é a diferença entre uma empresa que vive correndo atrás de anunciar as novidades e outra que consegue “segurar” o fio da mudança antes que ele se embarace.
Da campanha à travessia
Embora não seja a virada mais óbvia, essa mudança de papel é uma das mais estratégicas: a comunicação tem, hoje, um lado B decisivo, o da gestão – ao lado do RH.Até porque, quando a transformação é permanente, não adianta “comunicar bem” depois que tudo já foi decidido. Se a comunicação interna só aparece no fim da cadeia e recebe a “mudança pronta”, ela chega tarde demais e não organiza nada. Júnior Ribeiro, gerente de Marketing Institucional e Comunicação Interna da EMS, é categórico sobre isso. “Quando a mudança era pontual, fazia sentido pensar em planos específicos para comunicar uma nova estrutura, uma nova ferramenta ou um novo processo. Hoje, esse modelo já não é suficiente”, afirma. Para ele, o papel da área passou a ser organizar o contexto, dar clareza às prioridades e sustentar confiança em meio à velocidade, o que exige, entre outras coisas, governança, escuta ativa, dados e proximidade com a liderança.
Nesse contexto, a proximidade com o negócio não é um mero detalhe. É, praticamente, uma condição de sobrevivência de toda e qualquer mensagem. “A comunicação interna precisa estar conectada ao negócio, não apenas à agenda de comunicados”, reforça Júnior. E continua: “ela deve entender o que está por trás de cada movimento, antecipar dúvidas, mapear impactos para diferentes públicos e traduzir a estratégia em uma linguagem que faça sentido”.

da EMS
Clareza também é cultura
Do lado do RH, essa leitura não só faz todo o sentido, como é estratégica para a organização. Eliane Pellegrino, CHRO da Aramis Inc., também enxerga a comunicação interna saindo da simples transmissão de mensagens para a construção de contexto. “Quando a transformação se torna parte permanente da operação, não faz mais sentido comunicar mudanças como eventos isolados”, explica. Para ela, a importância da área extrapola a demanda por volume de informação. Ou seja, o que está em jogo não é comunicar mais, mas garantir alinhamento cultural, clareza e consistência – três fatores que ajudam o colaborador a atravessar períodos de turbulência com mais confiança e os olhos voltados para o futuro.
Como exemplo, ela cita uma live mensal em que a companhia compartilha resultados, pontos de atenção, chegada de novos colaboradores e os próximos passos da empresa. “São momentos que ajudam a criar transparência e aproximar as pessoas da estratégia do negócio”, afirma.

da Aramis Inc.
De informar a criar contexto
Há, nessa virada, uma diferença que pode parecer pequena à primeira vista, mas muda tudo na prática: informar e criar contexto não são a mesma coisa. Informar é dizer que uma mudança passa a valer a partir de agora. Criar contexto é explicar por que ela aconteceu, o que a empresa espera construir e o que o colaborador precisa priorizar na segunda-feira de manhã. Sem essa camada, a mensagem até chega, mas chega solta e pode virar só mais uma notificação em meio a tantas outras.
Maria Carolina Castro, head de Comunicação e Marca da ACCIONA no Brasil, descreve essa transição com precisão. “A grande virada foi perceber que não dá mais para tratar cada transformação como uma campanha com início, meio e fim. Saímos do modelo de comunicar o programa e passamos para o de construir narrativa ao longo do tempo”, analisa. Segundo ela, mais importante do que informar é fazer com que as pessoas compreendam o que está acontecendo, como isso se conecta com o que veio antes e para onde a organização está caminhando. Por isso, informar é o mínimo; o difícil mesmo é dar sentido ao que não para de mudar.
Sem esse fio condutor, qualquer movimento diferente do comum vira um grande sobressalto – e ninguém em sã consciência gosta de ser surpreendido assim. “Cada mudança parece uma surpresa, mesmo quando era previsível. E surpresas repetidas criam desconfiança”, adverte Maria Carolina.

da ACCIONA
O ruído que vem do excesso
E é nesse ponto que mora um dos maiores perigos para a comunicação interna: em uma empresa que muda o tempo todo, a tentação é tratar toda mudança como se precisasse virar uma nova mensagem. Parece até uma resposta lógica ao momento. Afinal, se há muita coisa acontecendo, então é preciso falar mais. Só que, na prática, o excesso sobrecarrega o colaborador, em vez de deixá-lo bem-informado. Para Júnior Ribeiro, da EMS, esse fenômeno tem nome. “Transformar a comunicação em ruído. Quando tudo é prioridade, o colaborador perde referência”, alerta. O resultado disso é ansiedade, insegurança e a sensação de que a empresa vive mudando de rumo, mesmo quando existe uma estratégia clara por trás disso. A saída, para ele, não é falar menos por omissão, mas “deflacionar” a prioridade. “É preciso organizar mensagens por relevância, público, momento e canal”, pondera, defendendo a curadoria como antídoto contra a infoxicação.
Curiosamente, o vilão nem sempre é a quantidade. Uma empresa pode comunicar bastante sem, necessariamente, deixar as pessoas perdidas. O problema começa quando cada mensagem parece apontar para uma direção diferente. É nesse ponto que a inconsistência se torna um problema mais perigoso do que o excesso. Isa Correia, da SURA Brasil, resume o risco ao dizer que isso “corrói a confiança rapidamente”. E, convenhamos, em um país já marcado por altos níveis de ansiedade, a comunicação interna não tem como prometer estabilidade permanente. Mas pode fazer algo importante: organizar a narrativa para que o colaborador entenda a lógica por trás das decisões, inclusive quando há escolhas difíceis no caminho. “O trabalho da área, nesse sentido, é transformar incerteza em compreensão. E compreensão gera capacidade de navegação, mesmo em águas turbulentas”, observa.
Entre o boato e a enxurrada de informação
Mas existe um ponto de equilíbrio delicado nesse processo. Se a empresa fala pouco, abre espaço para boato. Se fala demais, mas sem qualquer coesão, cria uma avalanche de informações que ninguém consegue processar. E, nos dois casos, a comunicação interna falha não porque faltou canal, mas porque faltou direção, enquanto a mudança se desenrola. Júnior Ribeiro descreve esse cenário como uma verdadeira corda bamba, na qual a organização precisa buscar sempre o equilíbrio. “A ausência de comunicação gera boato, mas o excesso desorganizado também gera insegurança”, observa.
O caminho, na sua avaliação, está em “comunicar com consistência, planejamento, transparência e responsabilidade”. Isso significa criar uma cadência clara, em que o colaborador saiba onde buscar a informação oficial, quando haverá atualização e qual é o papel da liderança no processo. Parece básico, mas não é. Em muitas empresas, a pessoa recebe um e-mail, ouve outra versão na reunião e descobre um terceiro detalhe pelo colega. Daí para a desconfiança, o passo é curto.
Outro erro recorrente, lembra o gerente da EMS, é comunicar só a mudança, sem o porquê. “As pessoas precisam entender não só o que vai mudar, mas por que isso está acontecendo, o que se espera delas, quais impactos são reais e quais pontos ainda estão em construção”, enfatiza. Ou seja, assumir o que ainda não se sabe também é informação. Além disso, ele lembra que, em empresas com múltiplos públicos e jornadas diferentes, a segmentação é o que impede uma mensagem estratégica de chegar genérica demais para quem precisa entender como aquela mudança afeta seu dia a dia.
Ansiedade não se combate com volume
Se, quando o assunto é mudança, parte do problema está no que as pessoas sentem diante dela, a resposta da comunicação interna também precisa considerar esse lado mais emocional ao falar com o colaborador. Nesse contexto, Eliane Pellegrino, da Aramis Inc., amplia a discussão para além da atualização constante e aponta para algo mais profundo. “As pessoas não precisam apenas de atualização; elas precisam de prioridade, contexto e previsibilidade”, define. Daí vale refletir sobre o peso da própria mudança, pois nem toda transformação tem o impacto de uma ruptura. “É fundamental separar o que é estrutural do que é ajuste operacional”, reforça.
Há ainda um segundo cuidado nesse processo: a coerência. Quando a empresa fala em transformação o tempo inteiro, mas não mostra consistência nem impacto positivo no dia a dia, o colaborador “começa a se desconectar emocionalmente”, aponta Eliane. E, convenhamos, não há comunicado bonito que recupere a confiança quando a rotina insiste em dizer o contrário. Diante do desafio de comunicar uma mudança que não tem ponto final, a transparência responsável é o que torna essa travessia possível.
Não à toa, a cadência também precisa fazer parte dessa estratégia. Maria Carolina Castro, da ACCIONA, resume o princípio com exatidão. “O que funciona, pela minha experiência, é comunicar cedo e com transparência sobre o que já se sabe e o que ainda está sendo definido”, observa. A chave está, justamente, na frequência e no tom da comunicação. “Ela precisa ser intencional, não reativa. Isso evita mais ansiedade dentro da organização”, crava. É a diferença entre disparar um comunicado urgente toda vez que um problema vem à tona e escolher, com critério, quando e como falar – assumindo, inclusive, o desconforto de dizer, com todas as letras, que determinado ponto ainda não está definido.
O que muda e o que permanece
Reduzir ruído, porém, já não basta. Em meio a tantas novidades, as pessoas também precisam saber onde pisar. Se a comunicação interna aponta apenas para o que está mudando, a empresa começa a parecer um terreno que nunca firma. Hoje muda o processo. Amanhã, a prioridade. Depois, a tecnologia. E o colaborador fica tentando entender o que, afinal, continua de pé.
É aí que entra uma camada essencial da comunicação interna em tempos de mudança: reforçar os valores, o propósito e as prioridades. Como resume a head de Comunicação ACCIONA no Brasil, “quando a comunicação só fala do que está mudando, ela alimenta a sensação de instabilidade. Quando ela também reforça o que permanece, ela devolve segurança psicológica às equipes.” É esse equilíbrio que, para ela, separa quem transforma com engajamento de quem transforma com desgaste.
O que muda e o que fica
Na prática, toda mensagem sobre mudanças deveria ajudar o colaborador a responder três coisas simples: o que isso significa para mim, o que continua valendo e o que eu preciso priorizar agora. Segundo ela, quando essas respostas aparecem com clareza, a comunicação interna deixa de alimentar a sensação de instabilidade e começa a devolver algum senso de direção. “Quando a comunicação consegue responder essas três perguntas, a confiança se mantém mesmo em períodos de muita mudança”, complementa a executiva.
Eliane Pellegrino, da Aramis Inc., chega ao mesmo lugar por outro caminho, o da cultura viva no dia a dia. Na sua avaliação, muitas vezes, a insegurança não nasce da mudança em si, mas da falta de entendimento sobre prioridades, impacto e direção. Por isso, a Aramis Inc. aposta em levar bastidores, relatos e experiências reais para o ambiente digital, fortalecendo pertencimento e conexão mesmo em um cenário de transformação constante. Quando o colaborador entende o propósito do movimento e enxerga seus efeitos na prática, a travessia tende a ficar menos desgastante. “A clareza reduz ruído, diminui desgaste emocional e fortalece engajamento porque cria percepção de coerência e confiança na liderança”, observa.
A âncora invisível
Esse trabalho de “ancoragem” também tem uma importante dimensão simbólica. Júnior Ribeiro, da EMS, propõe um exercício que parece simples, mas raramente é feito pela comunicação interna: separar as dimensões da mudança. “Uma boa comunicação ajuda a separar o que muda, o que permanece e o que é prioridade agora”, explica. E ignorar isso não é opção. Quando a empresa se limita a comunicar apenas a mudança, sem qualquer contexto, pode passar a sensação de ruptura permanente.
O contrapeso, nesse caso, está nos elementos de continuidade: cultura, propósito, valores e compromissos que devem seguir orientando as decisões, mesmo quando processos, ferramentas ou prioridades mudam. Sem essa camada, a transformação pode parecer puro improviso. Com ela, por outro lado, ganha estabilidade simbólica. Para Júnior, pesquisas de clima e dados também ajudam a mostrar onde falta clareza e quais temas precisam ser reforçados.
Mas clareza, lembra Isa Correia, da Seguros SURA Brasil, não produz engajamento sozinha. “Ninguém se engaja em uma transformação só porque recebeu um comunicado”, pondera. Até porque a adesão não acontece de uma vez. Primeiro, o colaborador toma consciência do que está mudando; depois, precisa enxergar sentido para querer participar; só então constrói repertório para agir de forma diferente. É por isso que, nesse processo, a comunicação interna não pode se limitar ao anúncio da mudança. “Essa jornada exige presença”, reforça. A transparência, nesse caso, não elimina a complexidade das transformações, mas ajuda a evitar uma percepção ainda mais perigosa: a de improviso. “Não existe confiança sem clareza e continuidade”, resume Isa.
Traduzir o macro no micro
Essa presença, porém, não se resume a acompanhar o processo de perto. Ela também exige tradução. Para que a mudança deixe de parecer uma diretriz distante, a comunicação interna precisa conectar a estratégia da companhia à vida concreta de cada equipe. “A comunicação interna, em parceria com a área de Talento Humano e as lideranças, tem o papel de traduzir estratégia em expectativas tangíveis”, explica Isa. “Precisamos deixar claro o que é esperado de cada pessoa e do coletivo, conectando o macro ao micro.” É nesse exato momento que a estratégia deixa de ser um slide e vira algo que o colaborador reconhece na própria rotina, no que muda na segunda-feira de manhã.
Esse repertório, contudo, não nasce pronto, nem para quem comunica. “Ninguém nasce pronto para se comunicar bem, especialmente em momentos de alta complexidade. Vamos aprendendo ao longo da vida”, reflete Isa. Para ela, a organização tem responsabilidade crítica nesse desenvolvimento, e isso vale tanto para a área quanto para os gestores. “Assim como esperamos que os líderes estejam próximos de seus times, a área também precisa assumir esse papel de acompanhamento ativo”, sustenta. Em outras palavras, não basta desenhar a mensagem perfeita e soltá-la no vácuo. Alguém precisa estar junto, acompanhando o processo, enquanto ela é absorvida.
E quem traduz quando o comunicado acaba
Há um elo, porém, que nenhum canal substitui: a liderança. É o gestor imediato quem dá rosto e tradução à estratégia, principalmente quando a mudança precisa chegar à rotina da equipe. Isa Correia usa uma imagem curiosa para defender essa segmentação com intencionalidade estratégica: “Não dá para escrever uma carta de amor com o título ‘A quem interessar possa’”. Para ela, em vez de tratar os líderes como meros distribuidores de mensagens, o mais estratégico é colocá-los no papel de tradutores de sentido e leitores de clima. Afinal, são eles que estão na linha de frente, percebendo sinais, entendendo resistências e sustentando conversas difíceis com empatia. “É nessa ponte que a confiança se constrói ou se rompe”, crava.
Júnior Ribeiro, por sua vez, reforça que essa ponte precisa de andaime. “Em momentos de transformação, o colaborador olha para o gestor imediato para entender o que a mudança significa na prática. Por isso, o líder não pode ser apenas um replicador de mensagens corporativas. Ele precisa ser um tradutor de contexto”, explica. Mas ninguém traduz bem uma mudança se também está no escuro. Por isso, preparar a liderança exige mais do que repassar o comunicado antes do restante da empresa: envolve antecipar dúvidas, alinhar mensagens, oferecer repertório e criar espaços seguros para que o próprio gestor compreenda o movimento antes de levá-lo ao time. “Preparar a liderança para comunicar é tão importante quanto preparar a mensagem”, sublinha. Afinal, de que adianta bom canal e bom conteúdo se quem está na linha de frente não está alinhado nem preparado?

Nada substitui o olho no olho
E quando a operação não cabe numa tela? Essa pergunta é decisiva porque muita discussão sobre comunicação interna ainda parte de uma empresa imaginária, em que todos têm acesso ao mesmo canal, leem o mesmo comunicado e participam das mesmas reuniões. A realidade, entretanto, é bem menos uniforme. Há quem trabalhe no escritório, na loja, na fábrica, na estrada, no campo ou no canteiro de obras. Há quem passe o dia diante do computador e quem quase nunca tenha acesso digital durante a jornada. E quando essa diferença não entra na estratégia, a comunicação pode até parecer bem planejada no papel, mas não chega onde precisa chegar.
Maria Carolina vive esse desafio na ACCIONA, onde grandes projetos de infraestrutura espalham milhares de pessoas por canteiros sem acesso digital. “A liderança é hoje o elo mais crítico da comunicação interna, e isso fica ainda mais evidente onde a maioria das pessoas não tem acesso digital e está distribuída em cidades distintas. Nenhuma plataforma resolve isso”, afirma.
A experiência do dia a dia fala mais alto
Por isso, a resposta foi construir programas de liderança comunicadora dentro dos próprios projetos, capacitando equipes locais para desenvolver os líderes como comunicadores. Como reforça Maria Carolina, “nada substitui o olho no olho, a conversa direta, o gestor que está presente e sabe explicar o contexto para a sua equipe”.
Eliane Pellegrino fecha esse raciocínio onde a cultura realmente acontece: na experiência diária. Para ela, nenhuma comunicação institucional substitui a confiança construída na relação direta com a liderança. É o gestor quem percebe sinais de desgaste, acolhe dúvidas e ajusta expectativas. Por isso, na Aramis Inc, os rituais de conexão viraram prioridade: agendas recorrentes entre líder e liderado, encontros entre áreas, momentos de troca e team buildings que fortalecem proximidade. “Esses rituais ajudam a transformar cultura em prática cotidiana”, explica. E, então, vem a frase que talvez resuma toda a discussão: “as pessoas não vivem a cultura no PowerPoint, mas no dia a dia”.
Quando o colaborador também é comunidade
Esse vínculo direto com a liderança também ajuda a explicar por que a comunicação interna não fica restrita aos muros da empresa, principalmente em momentos de mudança. Nessa hora, o colaborador não apenas recebe a mensagem: ele interpreta, comenta e leva essa leitura para fora, nas conversas com colegas, familiares, clientes e comunidade. Por isso, quando a travessia é mal comunicada, o ruído também transborda.
Na ACCIONA, esse desafio aparece em uma escala difícil de ignorar. Só nas obras da Linha 6-Laranja, em São Paulo, são mais de 11 mil pessoas distribuídas por diferentes canteiros. Nesse contexto, não basta replicar para a obra a mesma comunicação pensada para o escritório. “A comunicação que funciona para o escritório corporativo não é a mesma que funciona para quem está na obra”, observa Maria Carolina. A questão não é mudar a essência da mensagem, mas adaptar o caminho, o formato e a linguagem para que a mesma cultura e os mesmos valores cheguem a públicos muito distintos sem perder coerência
Valorização e reconhecimento
Nesse contexto, o público interno também ajuda a construir reputação. Além de disseminar para fora a percepção que tem sobre a organização, muitas vezes ele também faz parte da comunidade que será impactada por aquele serviço. Por isso, quando se sente bem-informado e valorizado, torna-se um dos principais ativos de reputação da empresa, como observa Maria Carolina. É um lembrete importante para o diálogo que as empresas constroem com seus colaboradores: aquilo que é comunicado internamente também influencia a imagem que a organização constrói lá fora, no boca a boca.
No fim das contas, a mudança que não termina não vai esperar a comunicação interna estar pronta. Ela já chegou, e vai continuar chegando. O que muda é a postura da área diante dela. E talvez a lição da Rainha Vermelha precise de um adendo: não basta correr para permanecer no mesmo lugar; é preciso explicar, a cada passo, por que se está correndo e para onde se vai.
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