Ninguém mede pertencimento, mas todo mundo percebe quando falta. Talvez por isso nós, seres humanos, tenhamos criado tantos rituais ao longo do tempo, como uma forma de dar corpo ao que é abstrato e garantir algum grau de previsibilidade nas relações. É por meio dessas repetições intencionais que organizamos as emoções e construímos sentido compartilhado. Um abraço de boas-vindas diz nas entrelinhas que “você pertence”. No trabalho, a lógica é semelhante. Reuniões recorrentes, encontros com lideranças e momentos de reconhecimento funcionam como marcadores simbólicos do que realmente importa. São esses rituais organizacionais que dão à comunicação interna a possibilidade de construir vínculos e dar densidade à cultura.
Se os rituais dão forma ao que é sentido, eles também produzem efeitos. Toda interação recorrente deixa algum tipo de marca. Uma reunião com o chefe pode aproximar ou afastar, engajar ou desgastar o colaborador. Dá para ler esses gestos como uma espécie de física invisível das relações, um sistema de forças simbólicas e emocionais que atua sobre o clima, a confiança e a disposição coletiva. Mas nem sempre o impacto está no conteúdo em si. A dinâmica do ritual também comunica: quem pode perguntar, quem responde e o que acontece depois são tão importantes quanto a mensagem compartilhada. No fim, pequenas variações podem mudar completamente o resultado e o efeito que fica nas pessoas.
Ritual como parte da arquitetura humana
No cotidiano das organizações, alguns encontros se tornam tão significativos que deixam de ser um compromisso na agenda e passam a funcionar como parte da própria engrenagem do trabalho. E não é a frequência que define seu peso, mas a função que exercem no campo relacional. Em outras palavras, quando a comunicação interna se apoia em rituais organizacionais bem desenhados, o que se constrói não é apenas um fluxo eficiente de informação – é a tradução da estratégia para quem executa. Um dos efeitos mais visíveis é a queda da ansiedade, com menos ruído interpretativo e mais clareza sobre o dia a dia.
Na Porto, holding brasileira referência em soluções de serviços de proteção, o desenho desses espaços é tratado como parte do próprio modo de operar. A diretora de Gente e Cultura, Patrícia Coimbra, descreve os fóruns recorrentes como verdadeiras engrenagens de alinhamento entre a empresa e seus colaboradores. “Os rituais têm papel central no compartilhamento de informações e incentivo à construção coletiva”, afirma. A ênfase não está apenas no conteúdo, mas no convite à troca. Fóruns como o Café com Líderes reúnem diferentes níveis de gestão para alinhar expectativas e dividir desafios, o que, segundo ela, reduz distorções de leitura entre áreas.

da Porto
Presença da liderança muda o campo
Não por acaso, a forma como a liderança aparece também altera o efeito emocional desse sistema. Executivos que só falam em momentos críticos tendem a produzir um campo de tensão; já aqueles que se expõem de forma recorrente, no fluxo normal de trabalho, produzem previsibilidade e proximidade. Na Porto, por exemplo, os encontros periódicos com o CEO, que vão desde bate-papos trimestrais e lives mensais a conversas por unidade de negócio, funcionam como pontos de estabilização simbólica que fortalecem a confiança e dão lastro à comunicação interna. A repetição do contato cria referência.
Nesses rituais, resultados são apresentados, decisões são contextualizadas e perguntas são abertas ao público, o que desloca a ideia de “monólogo” para uma interação genuína. “Iniciativas como essas funcionam não apenas como canais de informação, mas como termômetros da confiança e do pertencimento dos colaboradores”, destaca Patrícia. Mas a parte decisiva desse sistema está na possibilidade de fazer perguntas e tirar dúvidas diretamente com quem decide, deixando claro que a cultura de diálogo aberto é real.
Na leitura de Patrícia Coimbra, espaços como a Carta de Navegação, informativo semanal assinado pelo CEO e os bate-papos com as lideranças das unidades, ajudam a traduzir “o jeito Porto de operar: próximo, transparente e orientado à colaboração”. O impacto, segundo ela, não está apenas na mensagem compartilhada, mas na previsibilidade de cada rito. “Esses rituais fortalecem o entendimento sobre expectativas de participação, formas de decisão e valores da empresa”, reforça a porta-voz. Na prática, quando o colaborador sabe que haverá sempre um espaço estruturado para escuta e informação, a comunicação interna reduz possíveis assimetrias e impede que os rituais organizacionais virem meros protocolos. Estamos falando de construção de sentido, transparência e cultura percebida.
Temperatura emocional
Ao mesmo tempo, é preciso compreender que audiência não é sinônimo de impacto. Um encontro pode ter alta aderência e baixo impacto, ou o contrário. Por isso, rituais como esses também servem como termômetros de clima: ajudam a ler o colaborador e perceber se a comunicação interna está, de fato, dialogando como se espera. Além disso, ela descreve esses espaços de conexão como “termômetros da confiança e do pertencimento”.
No caso da Porto, os principais fóruns são acompanhados por pesquisas de experiência, escuta qualitativa e indicadores específicos de satisfação. O objetivo, segundo Patrícia, não é apenas saber se foi visto, mas como foi sentido e o que produziu depois. “Assim, conseguimos identificar oportunidades de melhoria e evoluir continuamente os formatos, conteúdos e rituais”, explica. A medida é importante por permitir que a comunicação acompanhe o contexto emocional da organização e esteja alinhada à Proposta de Valor ao Colaborador (EVP).
O rito é a expressão da cultura
Se pararmos para pensar, uma semana comum de trabalho revela mais sobre a cultura do que qualquer documento ou comunicação. É nas conversas recorrentes, nos alinhamentos curtos e nos encontros de equipe que o discurso é testado na prática. A bem da verdade, quando a comunicação interna se materializa em rituais organizacionais frequentes, o colaborador não apenas recebe direcionamento, como também usufrui desse espaço de participação. A pergunta, então, deixa de ser “o que a empresa diz que valoriza” e passa a ser “o que acontece quando alguém fala”.
Na EMS, uma das maiores farmacêuticas do país, o desenho desses encontros parte dessa lógica de experiência. O gerente de Marketing Institucional e Comunicação Interna, Júnior Ribeiro, descreve um ecossistema que inclui reuniões individuais entre líder e colaborador (1:1), encontros semanais de equipe (weeklies), All Hands (encontro geral com todos os colaboradores), cafés com liderança, integrações e reconhecimentos. Segundo ele, o critério não é o formato, mas a intenção relacional. “Hoje, os rituais mais relevantes são os que promovem alinhamento estratégico, escuta ativa e colocam o colaborador no centro”, afirma.
Formato não garante o efeito
O efeito dessas interações aparece na forma como prioridade e decisão são compreendidas no cotidiano. Júnior Ribeiro argumenta que esses encontros recorrentes ampliam a transparência sobre critérios, contexto e expectativa de contribuição, reduzindo incertezas difusas e ruídos interpretativos. Não é apenas sobre anunciar o que será feito, mas explicar como e por quê. Na leitura dele, é justamente aí que o rito vira experiência cultural. “É nesses rituais que o ‘jeito’ da organização ganha forma no cotidiano. São momentos em que escutamos de verdade, reforçamos valores e damos transparência sobre o que é prioridade”, afirma.

da EMS
Além disso, a consolidação de modelos híbridos e digitais também empurrou esses ritos para novos formatos, com transmissões ao vivo, newsletters segmentadas e canais colaborativos, mas sem eliminar sua função original. Mesmo empresas majoritariamente presenciais passaram a conviver com rotinas mais fragmentadas, o que exige pontos de contato mais flexíveis e distribuídos. A avaliação de Júnior é que a comunicação interna precisa acompanhar o ritmo real das pessoas, “estar onde elas estão e do jeito que elas consomem”. Nesse movimento, parte dos rituais presenciais foi ressignificada, outros deixaram de fazer sentido e novos formatos surgiram. A forma muda, mas o papel de criar vínculo permanece.
Alcance e sentido
Mas, afinal, como medir algo que não cabe numa planilha? Se essas interações recorrentes produzem efeitos subjetivos, mais emocionais, como confiança e pertencimento, não dá para capturá-las apenas por audiência e taxa de abertura. No terreno da comunicação interna, esses rituais organizacionais também precisam ser lidos por sinais indiretos, como apropriação de linguagem, qualidade das perguntas e circulação espontânea de narrativas. Basicamente, nem tudo é número, mas quase tudo deixa algum rastro. O desafio, como o porta-voz da EMS bem coloca, é saber onde e como olhar.
Na EMS, a leitura desses efeitos parte de múltiplas camadas de escuta. O gerente de Marketing Institucional e Comunicação Interna descreve um modelo que combina métricas formais com percepção viva do ambiente. “A gente sabe que nem tudo se mede com número, mas é possível, sim, captar esses sinais mais subjetivos”, afirma. Entram aí escutas qualificadas, eNPS por rituais (Employee Net Promoter Score, a famosa taxa de satisfação), grupos focais, pesquisas de clima e até os indícios mais informais, como a “conhecida e eterna rádio peão”. Na prática, até o que parece ruído, muitas vezes, serve de termômetro. “A forma como as pessoas respondem espontaneamente aos conteúdos também é reveladora”, pontua.
Métrica não é só alcance
O modelo adotado amplia o olhar para além do alcance. Segundo ele, a equipe usa camadas de mensuração que observam desde a entrega da mensagem até seus desdobramentos, o que foi publicado e visto, o que foi de fato compreendido, o que gerou mudança de percepção e o que passou a circular espontaneamente entre as pessoas. Em vez de medir apenas a chegada, a lógica é acompanhar efeito e reverberação – Output, Outtake, Outcome e Outflow. Assim, é possível identificar se gerou compreensão e mudança de percepção
Nessa leitura, os efeitos desses rituais aparecem em microevidências na comunicação interna, como aumento de engajamento, comentários não provocados e times que passam a usar a mesma narrativa. “Além de alcançar, precisamos saber se estamos realmente tocando”, resume. Como ele bem frisa: “tudo isso importa e comunica”.
Desenho do rito é desenho de efeito
Diante de tudo isso, fica evidente que os rituais não são neutros, e sim cheios de intencionalidade. Projetos em todos os seus detalhes, do formato à linguagem, passando por mediação e canal. Ao combinar esses elementos, a organização consegue moldar o tipo de interação que será possível ali dentro. Por isso, o papel da comunicação interna no desenho dos rituais organizacionais é menos operacional do que parece: é curatorial. Decide-se o que entra, como entra, com que tom e com qual espaço de resposta.
Como Patrícia Coimbra bem explica, esse trabalho começa bem antes do encontro acontecer a fim de garantir que espaços como esses sejam “vivos, relevantes e alinhados à cultura”. O princípio orientador é simples: “comunicar não é apenas informar, mas envolver as pessoas nas transformações do negócio de forma transparente, consistente e participativa”. Com esse objetivo, o time trabalha junto às lideranças e áreas estratégicas para definir meta, formato e mensagem de cada rito, sempre conectado às leituras de clima e às oportunidades de ajuste captadas nas pesquisas.

Curadoria confere clareza
A curadoria também passa por integração de canais e tradução de linguagem. Conteúdos estratégicos circulam por intranet, newsletters, TV corporativa e encontros com liderança, mas não de forma replicada, e sim adaptada ao contexto e à profundidade necessária.
A preocupação, segundo a executiva, é manter coerência e clareza, transformando mensagens complexas em entendimento prático. “Temos a preocupação de alinhar o discurso em todas as instâncias e trazer uma linguagem fácil e simples para traduzir essas grandes mensagens”, observa Patrícia, citando ainda que os rituais da Porto registram níveis de avaliação superiores a 90 pontos. Dessa forma, fica claro que, quando esse cuidado existe, os rituais organizacionais deixam de ser atos formais de comunicação interna e passam a funcionar como espaços de construção coletiva, transparência e vínculo.
Rituais que energizam e os que drenam
Mas que fique claro que nem todos os rituais organizacionais fortalecem a comunicação interna – alguns até esvaziam. Às vezes, o encontro só existe para cumprir calendário e a fala acaba sendo unilateral e decorativa. Então, o que deveria gerar alinhamento passa a produzir cinismo. A diferença entre eles está menos no formato e mais na qualidade da interação. Tanto a Porto quanto a EMS apostam na mesma estratégia: a comunicação interna como espaço de trocas reais. Previsibilidade ajuda, mas só sustenta vínculos quando vem acompanhada de abertura, consequência e resposta. Sem isso, o campo relacional perde força.
Na prática, isso exige desenho e mediação desde a origem. Júnior Ribeiro defende que a área deve entrar logo no início da concepção desses rituais, em cocriação com o RH e as lideranças, testando formatos, ouvindo feedbacks e ajustando rotas. O papel, segundo ele, vai além de divulgar: é conectar. “Nosso papel não é só comunicar, é criar pontes de conexão. Ritual que vira monólogo perde o valor”, afirma. Por isso, a equipe atua na curadoria e na preparação das lideranças para conduzir encontros com escuta ativa e diálogo. Quando a comunicação interna assume essa função de arquitetura relacional, o ritual vira terreno fértil de significado compartilhado.
Rituais em tempos de mudança
Agora, imagine a importância disso tudo em meio às mudanças que atravessam as organizações. Sempre que as prioridades mudam, processos são revistos e direções são ajustadas. É nesse ponto que os rituais organizacionais se tornam verdadeiras estruturas de sustentação, amplificando o que a comunicação interna tem a dizer. A repetição de encontros, a presença visível da liderança e os espaços de escuta ajudam a conter a ansiedade e reorganizar o sentido coletivo diante do novo cenário.
Para Patrícia Coimbra, da Porto, esse cuidado com o colaborador começa pela antecipação e personalização da mensagem, com linguagem simples e próxima dos públicos mais impactados. Encontros e conversas abertas ajudam a materializar decisões e reforçar confiança. Não à toa, ela destaca que o papel da liderança é atuar como agente de estabilização, explicando caminhos e critérios. “A clareza e a transparência sobre o ‘porquê’ e o ‘como’ das decisões são fundamentais para que a mudança seja percebida como um avanço, e não como uma ruptura.” É assim que a comunicação faz com que os colaboradores se reconheçam como parte ativa de todo e qualquer processo.
Já do lado da EMS, Júnior Ribeiro reforça que rituais de presença e escuta estruturam a travessia, seja em momentos de tensão ou nos ciclos normais de ajuste. Como ele bem resume, o papel da área é “sustentar o emocional coletivo e manter a coesão, mesmo em meio à mudança”. No fim das contas, a física dos rituais na comunicação interna revela algo simples e potente: cultura não se sustenta só por discurso.
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