Comunicação interna

Como a comunicação interna pode sustentar desenvolvimento, retenção e futuro profissional

Na análise de Lidianne Dantas, diretora jurídica e de comunicação institucional na Aeris Energy, comunicar estratégia com clareza é o que transforma desenvolvimento em permanência

de Lidianne Dantas em 30 de janeiro de 2026
comunicação interna Clareza e direcionamento de carreira ganham papel estratégico na retenção de talentos

O Relatório Renewable Energy and Jobs 2025, da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), indicou que, em 2024, o Brasil tinha cerca de 1,39 milhão de empregos no setor de energias renováveis. Esse número colocava o país na terceira posição global em geração de vagas nessa área, atrás apenas da China e da Índia.

Esse dado refletia uma realidade estrutural diferente do que muitos prognósticos econômicos tradicionais apontavam: os mercados de energia renovável, incluindo solar, eólica, hidrelétrica e biocombustíveis, seguiam absorvendo mão de obra em um momento em que outras indústrias maduras apresentavam ritmos mais lentos de criação de empregos. Nesse cenário de crescimento combinado a transformações estruturais, a comunicação interna já se mostrava relevante para ajudar profissionais a compreender como a evolução do setor se traduzia em oportunidades concretas dentro das organizações.

No caso específico da energia eólica, porém, esse movimento positivo convive com um período recente de desafios em toda a cadeia produtiva. A desaceleração da demanda por novos projetos no Brasil ao longo de 2024 e 2025 levou à postergação de investimentos, ajustes operacionais e revisões de capacidade em fabricantes, fornecedores e operadores, exigindo das empresas maior foco em eficiência e reorganização estratégica.

Comunicação interna como eixo de desenvolvimento e retenção

Essa combinação de crescimento estrutural do setor, transformação acelerada das funções e ajustes conjunturais na cadeia eólica altera a forma como empresas e profissionais avaliam empregabilidade. É nesse ponto que a comunicação interna aparece como um agente que sustenta desenvolvimento, ao mesmo tempo em que atua para a retenção de talentos e a construção de futuro profissional no segmento. Isso porque a permanência em uma organização passa a depender menos da existência imediata de vagas e mais da capacidade de adaptação a novas exigências técnicas e operacionais. Nesse contexto, a comunicação interna deixa de cumprir apenas um papel informativo e passa a atuar como instrumento estratégico para orientar decisões e sustentar a percepção de futuro dentro das organizações.

O ano de 2026 tende a ser estratégico para a consolidação das operações no setor eólico porque marca a convergência de três movimentos estruturais: a retomada gradual dos investimentos após um ciclo de ajuste financeiro e operacional, a maturação de projetos contratados nos anos anteriores e a pressão crescente por eficiência em toda a cadeia produtiva. Com a normalização de encomendas, a entrada em operação de parques já contratados e o avanço de tecnologias que aumentam produtividade e reduzem custos, as empresas passam a operar menos orientadas à expansão acelerada e mais focadas em execução, escala e rentabilidade. Esse contexto desloca o eixo competitivo do setor: a vantagem deixa de estar apenas na capacidade de crescer e passa a depender da capacidade de operar com times qualificados, processos estabilizados e competências alinhadas às exigências técnicas do novo ciclo.

Traduzir estratégia para o trabalho diário

É nesse ambiente de consolidação que a comunicação interna assume uma função operacional relevante. Traduzir estratégia deixa de ser um exercício conceitual e passa a significar explicar como decisões corporativas se materializam no trabalho diário. Quando a empresa comunica investimentos em digitalização, automação, novos contratos ou reorganização produtiva, torna-se essencial detalhar quais funções tendem a ganhar relevância, quais atividades serão transformadas e que tipos de competências passam a ser necessárias para sustentar a operação.

Sem essa tradução, colaboradores recebem apenas informações de alto nível, como metas, resultados ou mensagens sobre eficiência, mas permanecem sem parâmetros para orientar escolhas concretas, como aderir a programas de capacitação, buscar mobilidade interna ou se preparar para assumir novas responsabilidades. A ausência de clareza gera desinformação e aumenta o risco de decisões desalinhadas entre a estratégia do negócio e o desenvolvimento das pessoas.

Tecnologia, certificações e novas competências

No setor eólico, esse desafio é ampliado pela incorporação acelerada de tecnologias como monitoramento remoto, manutenção preditiva e integração digital de sistemas. Relatórios da Global Wind Organisation indicam que a demanda por profissionais certificados continuará crescendo na segunda metade da década, impulsionada principalmente pela modernização de parques existentes e pela ampliação de serviços especializados. Esse movimento exige que profissionais compreendam, com antecedência, quais competências serão valorizadas e como podem desenvolvê-las dentro da própria organização.

E considerando esse contexto, a comunicação interna contribui diretamente para esse entendimento ao conectar mudanças estratégicas a trajetórias profissionais observáveis. Ao explicitar critérios de progressão, divulgar trilhas de aprendizagem alinhadas às tecnologias adotadas e apresentar exemplos reais de mobilidade interna, a empresa transforma iniciativas de desenvolvimento, muitas vezes já existentes, em referências claras para a tomada de decisão individual. Nesse processo, a comunicação deixa de ser apenas suporte e passa a atuar como mecanismo de alinhamento entre estratégia, pessoas e operação.

Previsibilidade, engajamento e permanência

Do ponto de vista prático, organizações que utilizam a comunicação interna para antecipar transformações, contextualizar investimentos e detalhar impactos sobre funções e competências criam ambientes mais previsíveis. Essa previsibilidade influencia decisões relevantes, como o engajamento em programas de requalificação, a aceitação de novos desafios e a permanência durante períodos de consolidação operacional.

Embora esse debate esteja ancorado no setor eólico, o papel estratégico da comunicação interna descrito aqui é cada vez mais relevante para outros segmentos da economia brasileira. Em um contexto de crescimento moderado, ciclos de ajuste, pressão por produtividade e transformação tecnológica transversal, empresas de diferentes setores enfrentam o desafio comum de alinhar estratégia, pessoas e expectativas em ambientes de incerteza. Entendo que nesse cenário, a capacidade de comunicar mudanças, prioridades e impactos sobre funções e competências tende a se consolidar como um diferencial competitivo não apenas para a retenção de talentos, mas para a sustentabilidade dos negócios no médio e longo prazo.

Comunicar futuro como estratégia de sustentabilidade

Oferecer futuro aos profissionais, portanto, não depende apenas da existência de planos de carreira ou investimentos em treinamento. Depende da capacidade de comunicar esses elementos de forma clara, contínua e conectada à estratégia do negócio. Em um setor intensivo em tecnologia e sujeito a ciclos de ajuste, como o eólico, a comunicação interna se consolida como um dos principais instrumentos para transformar empregos em trajetórias profissionais sustentáveis.

Percebo que empresas que compreendem esse papel da comunicação estão mais bem posicionadas para consolidar operações, reter talentos estratégicos e sustentar vantagem competitiva em um mercado cada vez mais exigente do ponto de vista técnico e operacional.

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