Sempre me perguntam o que me leva a preferir ficar dentro de uma planta acompanhando a intensidade do seu dia a dia, ao invés de ficar no conforto de um escritório corporativo em São Paulo. A resposta, embora simples, carrega o DNA da transformação que estamos vivendo: eu precisava estar onde a vida acontece, onde os desafios reais do negócio se manifestam e onde o RH pode, de fato, atuar como parceiro da liderança e das pessoas no cotidiano.
Viemos de uma cultura em que, historicamente, o RH era visto quase como um balcão de processos, uma área de suporte, muitas vezes distante do calor do chão de fábrica. Na Novelis, empresa líder mundial em laminação e reciclagem de alumínio, entendemos que era hora de mudar esse paradigma. A transformação na gestão de pessoas não pode nascer apenas de planilhas; ela precisa vir também da disposição de “ver com os pés”.
Menos telas, mais presença
Essa filosofia foi o nosso primeiro grande movimento. Tiramos as equipes de RH das cadeiras administrativas e as levamos para dentro da operação – não para fiscalizar, mas para ouvir, observar ecompreender a realidade de quem está na linha de frente. Na prática, isso significa uma liderança mais próxima: menos telas, mais presença. Quando o RH deixa de ser uma entidade abstrata e passa a ser uma presença acessível, capaz de resolver problemas em tempo real, a lógica do “nós contra eles” dá lugar a uma atuação conjunta.
Essa proximidade elevou o papel da área a um novo patamar. Passamos a atuar como parceiros efetivos do negócio, com repertório para dialogar tanto com o diretor de planta quanto com o operador. A escuta ativa e constante nos dá respaldo para agir em cada situação e legitimidade para implementar inovações tecnológicas com impacto direto na operação.
Sustentabilidade humana como estratégia de prevenção
Em um país que registrou mais de 850 mil acidentes de trabalho em 2024, sendo a indústria responsável por mais de um terço dessas ocorrências, falar de capacitação é, antes de tudo, falar de prevenção e proteção de vidas. Direcionar o olhar sob esse prisma é exercer a Sustentabilidade Humana na prática.
Utilizamos realidade virtual e aumentada em mais de 100 treinamentos, e o grande diferencial está na inteligência de construir essas soluções a partir da realidade e da dor do operador. Criamos simuladores que reproduzem com precisão equipamentos críticos, como pontes rolantes. O conceito central é simples: permitir o erro de forma controlada, em um ambiente seguro. Ao criarmos essa camada de segurança psicológica no aprendizado, reduzimos a ansiedade e aumentamos a confiança do colaborador. Em uma operação real, um erro pode ter consequências graves; no ambiente virtual, ele se torna parte do aprendizado. O resultado disso? Além dos ganhos qualitativos, alcançamos uma economia superior a R$ 5,5 milhões.
Esse movimento representa uma mudança de mentalidade. A segurança deixa de ser apenas um protocolo e passa a ser um sistema vivo, que aprende com a operação, orientado por dados e decisões mais inteligentes. Ao analisarmos padrões com o objetivo de evitar acidentes, percebemos que muitos desvios não estavam ligados a falhas individuais, mas a fragilidades no próprio desenho da operação. Isso nos levou a sair de uma lógica de correção para uma atuação focada em causa raiz, apoiada por dados e por uma abordagem robusta de People Analytics.
Tecnologia como extensão do cuidado
É o que muitos chamam de Indústria 5.0: quando a tecnologia deixa de ser um fim em si mesma e passa a ser uma extensão do cuidado. A digitalização dos processos trouxe mais agilidade e precisão, mas o verdadeiro ganho foi permitir que a liderança deixasse de operar no escuro. Com dados disponíveis de forma simples e em tempo real, o papel do gestor também se transforma. Ele deixa de ser apenas um compilador de informações e passa a atuar como um líder mais consciente das decisões que toma e do impacto que elas geram.
No fim do dia, o que permanece é que a inovação mais relevante continua sendo a proximidade. O papel da área de Recursos Humanos está justamente em garantir que as decisões do negócio façam sentido para quem está na operação – sem perder de vista que, por trás de qualquer indicador, existem histórias, contextos eescolhas.
