inteligência artificial

Na era da IA, o risco digital entra pela porta da frente

Adriano Pinhal, superintendente de IA da Mapfre, discute por que a ameaça digital nas empresas já não vem apenas de fora, mas também das decisões cotidianas de quem busca trabalhar com mais eficiência

de Adriano Pinhal em 31 de agosto de 2026
risco digital

Existe uma ironia pouco discutida na corrida pela inteligência artificial. Nunca se investiu tanto em proteção de dados e, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil compartilhá-los. Enquanto empresas ampliam seus investimentos em infraestrutura, segurança e compliance, uma parcela crescente do risco está surgindo em outro lugar. Não nos modelos de IA, nem nas plataformas que disputam a liderança desse mercado. O problema começa quando profissionais bem-intencionados passam a tratar sistemas de inteligência artificial como uma extensão natural do ambiente de trabalho e, sem perceber, levam para essas ferramentas conteúdos que jamais circulariam fora dos limites da organização.

Esse comportamento já tem nome. Chama-se Shadow AI. O termo descreve o uso de ferramentas de inteligência artificial sem supervisão formal ou fora das políticas corporativas. Os números ajudam a dimensionar o problema. Uma pesquisa da PagerDuty mostrou que 66% dos profissionais utilizam aplicações de IA sem comunicar seus empregadores, enquanto 43% admitem inserir informações relacionadas ao trabalho em plataformas públicas.

Quando o acesso deixa de ser o problema

O dado revela uma mudança importante na natureza do risco digital. Durante décadas, a preocupação das empresas esteve concentrada em impedir acessos indevidos. A lógica era a de que alguém do lado de fora tentaria chegar aos dados. A popularização da IA introduziu uma dinâmica diferente. Em muitos casos, as informações não estão sendo capturadas por terceiros. Estão sendo fornecidas espontaneamente por quem possui autorização para acessá-las.

É justamente essa aparente normalidade que torna o fenômeno relevante. Afinal, ninguém acredita estar colocando a organização em risco ao pedir que uma ferramenta resuma um contrato, organize uma apresentação ou analise uma planilha. A conveniência reduz a percepção de exposição. O ganho imediato de produtividade tende a ser visível. As consequências, quando existem, costumam permanecer invisíveis por muito tempo.

Tecnologia não resolve o que exige discernimento

Os números sugerem que essa prática deixou de ser pontual. Segundo a Cyberhaven, 34,8% dos dados compartilhados em ferramentas de IA já são classificados como sensíveis. Há dois anos, esse percentual era de 10,7%. O crescimento ajuda a explicar por que discussões sobre data leakage passaram a ocupar espaço cada vez maior nas agendas de tecnologia e segurança.

O debate, porém, corre o risco de seguir pelo caminho errado. A resposta para esse desafio dificilmente virá apenas de novos controles tecnológicos. Trata-se, sobretudo, de uma questão de governança, cultura organizacional e educação digital. Nenhum software é capaz de substituir o discernimento humano sobre o que pode ou não ser compartilhado.

A inteligência artificial continuará ampliando a produtividade das empresas e redefinindo processos. Essa trajetória parece irreversível. O que permanece em aberto é outra questão. Se os dados se consolidaram como um dos ativos mais valiosos das organizações, por que tanta gente ainda os compartilha com a mesma naturalidade com que envia uma mensagem instantânea? A resposta a essa pergunta provavelmente dirá mais sobre o futuro da IA nas empresas do que qualquer avanço anunciado pelos laboratórios de tecnologia.

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