O avanço da tecnologia e a crescente digitalização das empresas colocam os dados no centro das decisões. Mas como garantir que, mesmo diante de análises e indicadores, a gestão de pessoas continue humana, empática e ética? Essa foi a provocação central do painel “Racional sem perder a ternura: Analytics e a tomada de decisão justa”, realizado durante o 5º Fórum Melhor RH Tech, promovido no final do ano passado pela Plataforma Melhor RH e pelo CECOM (Centro de Estudos da Comunicação).
Com participação de Gustavo Gerolamo, diretor de Dados e Analytics na VR, Sérgio Amad, CEO da Fiter, e Fabiano Rangel, executivo de Desenvolvimento Organizacional, o painel trouxe à tona questões cruciais sobre a responsabilidade no uso dos dados, a necessidade de auditorias constantes, a importância da diversidade nas equipes de análise e os limites éticos da ciência de dados aplicada ao RH.
Dados, vieses e decisões humanas
Gerolamo iniciou destacando que o volume de dados disponível nunca foi tão grande, mas isso não garante decisões corretas. “Se o dado for ruim, a melhor análise do mundo não vai corrigir isso. Precisamos garantir qualidade, eliminar vieses e, principalmente, incluir pessoas diversas no processo de análise”, alertou.
Segundo ele, é necessário pensar nos dados desde sua origem, definindo claramente o objetivo da coleta e o impacto que aquela informação terá nas decisões. “Não adianta fazer uma pergunta errada para um dado certo. O erro já começa aí.”
Amad complementou lembrando que os dados sempre tiveram intenção e propósito, e que a ciência de dados aplicada ao RH precisa resgatar o olhar humano. “Quem criou a pesquisa de clima foi um cientista de dados, mas o viés de interpretação pode distorcer completamente os resultados”, afirmou.
Para ele, o que falta muitas vezes não é dado, mas reflexão crítica sobre como ele será usado. “Se a intenção é apenas conquistar um selo de boa empresa para se trabalhar, o dado perde valor. Precisamos de ferramentas que ajudem o colaborador a fazer autoanálises e decisões mais conscientes.”
Viés é inevitável — e precisa ser enfrentado
Rangel provocou os colegas sobre a possibilidade de uma base de dados totalmente isenta de viés. Ambos foram unânimes: o viés é inerente ao ser humano, mas pode — e deve — ser identificado, questionado e mitigado. “A análise baseada apenas em dados é perigosa. A decisão continua sendo humana, com todas as suas subjetividades. O papel dos dados é apoiar, não substituir”, disse Gerolamo.
Amad reforçou que os produtos e algoritmos também carregam os vieses de quem os criou. “A inteligência artificial aprende com o que damos a ela. Sem diversidade e sem contexto, ela só amplia os erros.”
Para garantir o uso ético, ambos defendem transparência nos modelos de predição, uso de dados continuamente atualizados, envolvimento de lideranças capacitadas e formação de uma cultura organizacional baseada em pensamento crítico.
O RH como guardião da análise ética
O painel foi encerrado com a reflexão sobre o papel do RH nesse cenário. “RHs nunca foram tão chamados a serem RHs de verdade como agora”, afirmou Rangel. “Competência técnica é importante, mas o desafio está em lidar com as ambivalências, a intuição, o contexto. Nossa tarefa é apoiar as lideranças para que não terceirizem ao dado a responsabilidade por decisões difíceis.”
Gerolamo completou: “Nenhum sistema de BI ou IA vai substituir o bom senso. A pessoa continua sendo quem decide.”
Amad trouxe a provocação final: “Todo dado carrega uma intenção. Se quisermos promover saúde mental, engajamento e propósito, precisamos que o dado seja entregue com humanidade, e não como sentença.”
Entre números e sentimentos, ficou claro que o futuro da gestão de pessoas exige tanto inteligência analítica quanto sensibilidade humana — e que os dados, usados com responsabilidade, podem ser grandes aliados de culturas mais justas, transparentes e inclusivas.
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