A farmacêutica AbbVie tem se destacado globalmente por sua atuação em prol da equidade de gênero e do desenvolvimento de lideranças femininas. Com 55% do seu quadro composto por mulheres e um compromisso institucional com diversidade e inclusão, a empresa criou o programa Unlock Her, uma mentoria interna voltada exclusivamente para o crescimento de mulheres dentro da organização.
Reconhecida pelo Instituto Ethos como uma das quatro farmacêuticas mais comprometidas com a agenda de diversidade no Brasil, a AbbVie também é signatária dos Princípios de Empoderamento das Mulheres (WEPs), uma iniciativa da ONU Mulheres e do Pacto Global que orienta empresas a promoverem o desenvolvimento profissional e social de mulheres.
Nesta entrevista concedida à Plataforma Melhor RH, Julia Mantovani, diretora de Recursos Humanos da AbbVie, compartilha os bastidores, resultados e aprendizados do programa.
Poderia nos dar um panorama geral da empresa, para contextualizarmos as ações do RH?
Julia Mantovani: Claro! Nós somos uma empresa biofarmacêutica que nasceu de um spin-off. Estamos completando 13 anos aqui no Brasil, mas já começamos com 100 anos de história por conta desse spin-off que aconteceu. Iniciamos no mercado de alta especialidade. Hoje, além disso, também atuamos no mercado estético — adquirimos a Allergan há cerca de quatro anos. As nossas principais linhas terapêuticas são imunologia, oncologia, neurociência e oftalmologia. Temos uma fábrica em Guarulhos e mais ou menos 1.100 colaboradores em todo o Brasil, incluindo pessoal da fábrica e representantes espalhados pelo país.

A AbbVie sempre teve como pilar da cultura a igualdade, equidade e inclusão. Isso vem da matriz com muita força. Quando assumi a posição de diretora de RH há um ano e três meses, trouxe como um dos nossos pilares estratégicos o trabalho com diversidade e inclusão, especialmente na cultura organizacional. Um dos programas que nos orgulha muito é o Unlock Her, que teve reconhecimento do Instituto Ethos.
Como funciona o programa Unlock Her?
Julia Mantovani: Em 2018, começamos a trabalhar de forma mais profunda com diversidade e inclusão. Criamos grupos de afinidade com foco em populações minorizadas: gênero, inclusão racial, pessoas com deficiência, gerações e o grupo LGBTQIA+. O grupo de gênero, formado por voluntárias da própria AbbVie, realizou uma pesquisa interna para entender o que bloqueava a carreira das mulheres na empresa.
A partir dos dados coletados, desenhamos o programa Unlock Her como uma mentoria em grupo, toda feita internamente. Executivas da AbbVie foram selecionadas como mentoras para grupos de até seis mulheres, permitindo um alcance maior do que seria possível em uma mentoria individual. O programa dura um ano, com encontros mensais de uma hora a uma hora e meia, discutindo temas como marca pessoal, posicionamento de carreira, maternidade e outras questões que impactam o crescimento profissional das mulheres.
Eu tenho um carinho especial por esse programa porque comecei como mentoranda, depois fui mentora e hoje estou do outro lado, apoiando o programa como diretora de RH. Já atingimos mais de 200 mulheres ao longo dos anos.
E qual é o critério para transformar líderes em mentoras?
Julia Mantovani: Primeiro, a mulher precisa ser reconhecida como exemplo dos nossos atributos de liderança, que são os comportamentos que pautam nossa cultura. Após essa validação pelo RH, ela passa por um programa de formação, com parceiros externos, para entender seu papel como mentora. Recebem materiais de apoio e sugestões de pauta ao longo do ano para nortear os encontros.
Ao final do ciclo, aplicamos um questionário para avaliar o impacto do programa na carreira das mentoradas e buscar melhorias. Estamos no terceiro ciclo e o programa está em constante evolução.
E como foi a abordagem do Instituto Ethos? Quais os próximos passos?
Julia Mantovani: Submetemos o programa e recebemos esse reconhecimento, que foi motivo de muito orgulho. Isso mostra a relevância do Unlock Her. Nossa estratégia de pessoas é baseada nas diversas dimensões da diversidade e isso vai continuar sendo fomentado.
Hoje temos equidade de gênero nas posições de liderança, algo conquistado com muito esforço. Esse equilíbrio fortalece a companhia. Continuamos criando estratégias para a evolução das mulheres na empresa. Um exemplo foi o projeto In My Shoes, onde discutimos maternidade com mais de 300 mulheres do Brasil inteiro. Foi um espaço de acolhimento, onde mostramos que está tudo bem ser mulher e mãe aqui.
Ser mãe é um dos maiores MBAs que existe. Desenvolve gestão de tempo, priorização e lidar com múltiplas tarefas. Queremos acolher essas mulheres e mostrar que é possível ser uma executiva de sucesso e mãe. Não será nos moldes de perfeição impostos pela sociedade, mas é possível.
Também promovemos rodas de conversa com homens, em parceria com o Papo de Homem [O Papo de Homem (PdH) é uma plataforma brasileira dedicada a promover discussões sobre masculinidades, relações de gênero e desenvolvimento pessoal, fundado há mais de 17 anos], sobre o papel masculino na divisão de responsabilidades. Implementamos a licença-paternidade estendida de 90 dias, compulsória. Entendemos que criar um filho é responsabilidade da família, não apenas da mulher.
Falamos também sobre o livro The Authority Gap, que discute o gap de autoridade entre homens e mulheres, e como o conhecimento sobre isso muda o posicionamento feminino. Promovemos letramento sobre expressões como gaslighting e mansplaining e incentivamos a correção desses comportamentos em comitês executivos.
Hoje nosso comitê executivo tem um equilíbrio muito positivo entre homens e mulheres, o que cria um ambiente seguro para o posicionamento feminino.
Para o público de liderança de RH, qual a recomendação prática para avançar na inclusão de gênero e em diversidade e Inclusão de maneira geral?
Julia Mantovani: É uma jornada. Não se muda um cenário da noite para o dia. Tudo começa com letramento, especialmente da alta liderança. Se a informação não chega ao topo, as ações não ganham tração. Esse foi um diferencial do Unlock Her.
O grupo de afinidade teve o apoio do board executivo desde o início. Isso exigiu do RH um letramento mínimo para que a liderança entendesse a importância do programa. Não podemos esperar que todos busquem conhecimento sozinhos. RH precisa fomentar discussões, trazer provocações adequadas e mostrar o que não é mais tolerável.
Temos um canal de denúncias, o Speak Up, e treinamentos obrigatórios sobre diversidade. Um gestor letrado nessas questões não vai agir de forma inadequada sem perceber. O RH precisa ser um espaço seguro para dúvidas e aprendizado.
Uma empresa composta apenas por homens é como um pássaro com uma asa só. Quando temos duas asas batendo em sintonia, a empresa voa melhor, com mais força e diversidade de pensamento.
A liderança é essencial para que qualquer programa de diversidade avance e se conecte com os propósitos organizacionais.