Inovação

Aprendizagem entre pares: o caminho mais curto para a inovação

Descubra como o peer learning transforma a experiência prática dos colaboradores em fonte de desenvolvimento contínuo e inovação real

de Priscila Perez em 12 de junho de 2026
aprendizagem e RH Aprender com colegas vira estratégia de inovação nas mãos do RH

Nem toda inovação nasce dentro de um laboratório ou em uma sala de reunião. Muitas vezes, ela aparece de um jeito bem menos solene: quando alguém compartilha uma experiência, um colega improvisa uma solução, uma área aproveita o caminho aberto por outra. No dia a dia das empresas, há aprendizados que não podem esperar o treinamento formal chegar. Em um mercado que muda rápido demais para aguardar que o desenvolvimento se encaixe na agenda, o desafio do RH, hoje, é transformar essa aprendizagem espontânea em motor de inovação, para que a empresa aprenda com ela mesma e não dependa apenas do que vem de fora.

Quando essa troca deixa de depender apenas da boa vontade dos colegas e passa a ser estimulada com intenção, o que temos é o chamado peer learning, ou aprendizagem entre pares. O conceito parte da ideia de que as pessoas aprendem melhor quando compartilham entre elas experiências, desafios e repertórios conectados ao que já enfrentam na prática. Por isso, em vez de tratar o desenvolvimento como um evento isolado, o modelo aproxima a aprendizagem do dia a dia e transforma a experiência dos colaboradores em matéria-prima para resolver problemas, ampliar repertórios e criar soluções mais conectadas ao negócio.

O aprendizado que não pode esperar

O problema é que essa matéria-prima costuma ficar represada no indivíduo, em vez de ganhar corpo nas reuniões e feedbacks. Fica no e-mail que nunca foi encaminhado ou na solução descartada porque a equipe não teve a oportunidade de compartilhar com o gestor. Já o desenvolvimento formal, com cronograma e plataforma, chega só depois, criando um intervalo longo entre o desafio enfrentado e o treinamento oferecido.  Nesse espaço, a empresa corre o risco de repetir erros, desperdiçar repertórios e deixar boas soluções restritas a quem as descobriu primeiro. Por isso, estruturar a aprendizagem entre pares é, antes de tudo, uma forma de o RH fazer o conhecimento circular no mesmo ritmo em que o trabalho acontece.

É nesse cenário que a experiência de quem já enfrentou um problema pode encurtar o caminho de quem ainda está tentando resolvê-lo. Para Carolina Ferreira, diretora de Pessoas, Marketing e ESG da Alelo, a inovação raramente nasce de uma ideia isolada. “Na maioria das vezes, ela surge quando pessoas compartilham experiências, aprendizados e até erros que viveram na prática”, analisa. A diferença está em transformar essas descobertas individuais em conhecimento disponível para toda a organização. Assim, cada profissional ou equipe não precisa começar do zero diante de desafios semelhantes, o que reduz possíveis retrabalhos e amplia o repertório coletivo.

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Carolina Ferreira,
da Alelo

Quando aprender junto acelera tudo

Essa percepção também ajuda a tornar o desenvolvimento mais orgânico. Embora trilhas, plataformas e treinamentos sejam importantes, boa parte da aprendizagem acontece no contato direto entre colegas, enquanto o trabalho está em curso e os problemas ainda estão se desenrolando. Segundo Carolina, o chamado modelo “70-20-10”, bastante usado na educação corporativa, ajuda a explicar essa dinâmica: nele, a maior parcela do desenvolvimento vem da experiência prática, outra nasce das interações profissionais e uma parte menor se dá por treinamentos estruturados.

Na Alelo, essa leitura aparece em rituais que revisitam as entregas já realizadas e no modelo de avaliação 360º, que estimula o diálogo entre profissionais para que o feedback não fique restrito à relação entre líder e liderado. destacando os pontos de aprendizado e celebrando as conquistas. “Quando conectamos pessoas de diferentes áreas para discutir desafios reais do negócio, surgem perspectivas que dificilmente apareceriam em um treinamento tradicional”, complementa.

A velocidade de aprendizagem é outro ganho que não pode ser ignorado pelo RH. Quando profissionais que vivem desafios parecidos trocam experiências, o conhecimento circula muito mais rápido. Em vez de cada equipe aprender sozinha, esses saberes passam a ser compartilhados e adaptados –e, como ela mesma destaca, “uma prática que funcionou em uma frente pode inspirar melhorias em outra”. Na Alelo isso acontece em encontros como o “Tamo Junto Liderança”, as Reuniões de Liga das diretorias e grupos de trabalho multidisciplinares. O resultado disso é inovação que nasce de dentro, conectada à realidade do negócio, com maior capacidade de adaptação. “O desenvolvimento está deixando de ser apenas uma agenda de treinamento e ficando cada vez mais conectado ao trabalho real.”

A confiança como condição

Para que tudo isso funcione, porém, há uma condição que antecede qualquer programa ou iniciativa: o ambiente precisa ser seguro para que as pessoas se sintam à vontade para compartilhar suas ideias, inclusive os erros e as dúvidas. Para Danusa Franco, diretora de RH da Nauterra Divisão América, esse é o verdadeiro ponto de partida. “Promover um ambiente colaborativo, seguro e focado no bem-estar, que estimule a troca genuína de conhecimentos, é fundamental”, sublinha a executiva. Com isto em vista, a segurança psicológica se torna uma condição estrutural para que a organização evolua de forma contínua.

Na Nauterra, essa base ganha forma no programa “+Líder +Colega”, um mecanismo de reconhecimento entre colegas que destaca profissionais tidos como referência em colaboração, inovação, sustentabilidade e alinhamento com o propósito da empresa. Segundo Danusa, o programa cumpre um papel que vai além do reconhecimento em si: dá visibilidade a boas práticas e atitudes que, de outra forma, ficariam restritas a quem estava por perto quando aconteceram. Dessa forma, ao tornar essas trocas visíveis para toda a organização, a iniciativa cria um efeito multiplicador, no qual comportamentos que fortalecem o aprendizado coletivo passam a ser reconhecidos, valorizados e naturalmente replicados.

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Danusa Franco,
da Nauterra

Prática como ponto de chegada

Em si, quando esse ambiente está bem construído, a troca entre pares deixa de ser apenas uma boa intenção e começa a interferir na qualidade das respostas que a empresa consegue produzir. Em vez de soluções genéricas, distantes da rotina, entram em cena caminhos mais simples, diretos e aplicáveis, justamente porque partem de problemas reais. Para Danusa, essa dinâmica ajuda a consolidar uma cultura em que o conhecimento não fica parado. “Ela fortalece uma cultura de colaboração real, em que o conhecimento circula mais rápido, se atualiza constantemente e ajuda a resolver problemas com mais agilidade”, resume.

Na Nauterra, a Escola de Liderança aparece como um exemplo prático dessa tentativa de aproximar desenvolvimento e prática. A iniciativa valoriza a troca entre pares e as experiências reais dos gestores, preparando lideranças mais conectadas aos desafios do negócio. Segundo ela, quando o desenvolvimento incorpora essas trocas, o aprendizado sai da teoria e ganha força na prática, com mais espaço de aplicação, conversa e construção conjunta.

Encontro de experiências

Se compartilhar é o objetivo, o que pode surgir quando pessoas com trajetórias, formações e visões de mundo completamente diferentes se encontram para resolver um problema real? Mais do que uma troca espontânea de informações, o que acontece é uma verdadeira expansão do campo de visão coletivo. Um profissional que passou anos em operações enxerga um desafio de forma diferente de quem veio do marketing ou da tecnologia, e é justamente nessa diferença que reside o potencial mais profundo do peer learning – não apenas como modelo de aprendizagem, mas como mecanismo que o RH pode estruturar para ampliar a capacidade de inovação das equipes

Para Carolina Ferreira, da Alelo, as melhores soluções normalmente surgem quando pessoas diferentes pensam juntas. Sabe aquela máxima de que “duas cabeças pensam melhor do que uma”? Quando o assunto é inovação, compartilhar é o verbo. Segundo ela, cada profissional carrega uma trajetória e uma forma de enxergar os desafios, e quando essas experiências se encontram, aumentam as chances de surgirem ideias mais completas e criativas.

Na Alelo, isso se traduz em um investimento crescente na conexão entre áreas distintas, com marketing, tecnologia, produto, negócios e pessoas construindo soluções em conjunto, lado a lado. “Acreditamos que inovação não é responsabilidade de um único time”, ressalta. Por isso, ela acredita que é justamente na interseção entre áreas que as perspectivas distintas se somam e produzem algo que nenhuma delas alcançaria sozinha.

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Aprendizagem entre pares também faz parte da estratégia

Sem confiança, a diversidade fica no organograma

Mas para que essa interação produza algo além de reuniões longas e conclusões medianas, precisa haver confiança entre os pares. Sem ela, a diversidade desenhada no organograma não sequer chega à conversa. Carolina é direta ao apontar que as pessoas precisam se sentir seguras para trazer opiniões, fazer perguntas e até discordar – e quando esse ambiente existe, a troca ganha uma profundidade que nenhuma trilha de treinamento consegue simular.

O tema ganha ainda mais peso em um momento em que a inteligência artificial avança e recoloca em evidência o que as máquinas não fazem: comunicação, liderança e a capacidade de construir junto. “Inovação não depende só de conhecimento técnico, mas também da capacidade de conversar, colaborar e construir junto“, crava.

De solução em solução

Do lado da Nauterra, Danusa Franco parte de uma realidade diversa e multicultural para mostrar como o RH pode desbloquear a inovação ao investir nessa dinâmica estruturada de aprendizagem entre pares – o peer learning.  De acordo com ela, o que acontece quando profissionais com diferentes formações e experiências se encontram é semelhante a uma conta de adição: as perspectivas sobre os desafios se ampliam e o repertório coletivo passa a ser maior do que a soma das partes. Não à toa, esse modelo tende a quebrar um padrão comum nas organizações – o de chegar sempre às mesmas respostas diante de problemas novos. “Na prática, isso estimula o questionamento de padrões, evita respostas óbvias e promove novas perspectivas, fortalecendo a capacidade de inovar com consistência”, reforça Danusa.

E é justamente por se basear em situações reais que esse modelo cria algo raro nas organizações: um ciclo que se retroalimenta. Quando a troca entre colegas gera uma solução que funciona, ela inspira novas trocas, que geram novas soluções. O conhecimento não apenas circula – ele se renova. Danusa observa que, na Nauterra, a combinação de repertórios distintos impulsiona soluções mais criativas e alinhadas aos valores da empresa. Segundo ela, a troca de ideias e a colaboração criam um ciclo positivo, no qual a aprendizagem entre pares passa a fazer parte da forma como a organização aprende, inova e evolui.

O RH como ponte para a inteligência coletiva

Mas reconhecer o valor desse modelo é apenas o primeiro passo. O segundo, e mais desafiador, é criar as condições para que ele aconteça de forma consistente, e não apenas quando a boa vontade e o acaso se encontram no corredor. É nesse ponto que o RH assume um papel diferente nesse processo de aprendizagem: o de arquiteto. Estruturar comunidades de prática, aproximar áreas que raramente conversam, garantir que os aprendizados não fiquem represados em uma equipe só – tudo isso exige intenção, método e uma visão clara de que a inovação não emerge do “nada”, mas de contextos bem construídos.

Para Carolina Ferreira, da Alelo, cabe ao RH criar as condições para que essas trocas aconteçam naturalmente no dia a dia. Segundo ela, isso passa por fortalecer uma cultura de confiança, incentivar a colaboração entre áreas e garantir espaços onde as pessoas possam compartilhar experiências reais de trabalho. Mais do que criar iniciativas pontuais, o objetivo é fazer com que a aprendizagem faça parte da rotina – não como mais um item na agenda, mas como parte do próprio fluxo de trabalho. Na Alelo, essa lógica se traduz em comunidades de prática, fóruns de liderança, grupos multidisciplinares e momentos estruturados de compartilhamento.

É o líder que abre o caminho

E nesse processo, a liderança tem um papel que o RH não pode ignorar. Carolina é direta: quando líderes compartilham aprendizados, pedem ajuda e valorizam perspectivas diferentes, ajudam a criar uma cultura em que o conhecimento circula de forma mais aberta. O comportamento do líder, nesse sentido, funciona como um sinal:  ele comunica o que a organização valoriza de verdade, muito antes de qualquer política ou programa formal. “Quando líderes promovem conexões entre equipes, ajudam a criar uma cultura em que o conhecimento circula de forma mais aberta”, ressalta Carolina.

Aprender também é estratégia

Não à toa, muitas vezes, esse caminho começa pela comunicação. Na leitura de Danusa Franco, da Nauterra, costurar o diálogo entre todos os níveis da organização é crucial para que a troca de conhecimento não fique restrita a determinadas áreas ou hierarquias. Segundo ela, canais como aplicativos, intranet e reuniões são utilizados para promover esse diálogo de forma contínua. Além disso, programas como o Inova – focado em ideias para diferentes áreas da empresa – e encontros regulares com gestores criam espaços onde a inovação pode emergir naturalmente, sem depender de uma única área para acontecer.

Por isso, mesmo que a espontaneidade seja uma fagulha importante para que a aprendizagem entre pares aconteça, o desenvolvimento não pode depender apenas dela, nem ser tratado como um benefício “acessório”. Para Danusa, aprender também é estratégia. Na Nauterra, a criação de uma Universidade Corporativa, com meta de 36 horas de aprendizado por pessoa ao ano, mostra que essa agenda precisa de estrutura para deslanchar. A lógica combina trilhas customizadas, formação organizada e aprendizado na prática, para que a evolução das equipes acompanhe o negócio sem perder de vista aquilo que só o cotidiano ensina.

Conhecimento coletivo

No fim das contas, o que as especialistas sinalizam é que aprendizagem e inovação não são projetos separados, mas movimentos que se retroalimentam. Quando o RH cria condições para que o conhecimento circule, a empresa não apenas desenvolve pessoas: ela aprende a resolver melhor os próprios problemas, transformando toda experiência em repertório coletivo.

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