A chegada dos primeiros jovens da Geração Alfa ao mercado de trabalho, inicialmente como jovens aprendizes e, agora, alcançando as primeiras oportunidades em estágios aos 16 anos, marca um ponto de inflexão dentro das organizações.
Filhos de Millennials e da Geração Z, esses jovens não apenas nasceram em um mundo digital, eles são os primeiros “nativos” em inteligência artificial. Para recebê-los, o RH terá de assumir um papel fundamental de parceiro estratégico dos líderes, provendo treinamento e ações práticas para lidar com os desafios que esses novos entrantes do mercado de trabalho estão trazendo para a gestão de pessoas.
Precisará se despir de vieses para entender que estamos lidando com indivíduos que cresceram em lares nos quais o diálogo e a escuta ativa são, em linhas gerais, bem mais frequentes do que eram nas relações familiares das gerações anteriores. Eles são o resultado de uma educação que valoriza o bem-estar emocional e a liberdade de expressão, o que se traduz em uma autonomia impressionante para alguns temas e uma vontade genuína de protagonismo em outros.
É fascinante observar, por exemplo, como a influência econômica dessa geração antecede sua entrada formal no emprego. De acordo com pesquisa recente da agência de relações públicas DKC, a Geração Alfa já possui um poder de compra estimado em US$100 bilhões, e devem atingir uma força econômica de US$ 5,5 trilhões já em 2029, quando os mais velhos atingirem a idade ativa. Isto demonstra que as marcas e organizações já precisam considerar esse público como agentes de decisão, não apenas como audiência futura.
Propósito, diálogo e expectativas
No campo do trabalho, acredito que o movimento vá se manifestar como uma necessidade constante dos jovens de compreender o “porquê” das coisas e de cada uma de suas tarefas. Sendo assim, o RH, atuando como suporte e facilitador, deve preparar as lideranças para se desapegarem de posturas excessivamente rígidas, em favor da abertura, diálogo e transparência – claro, de acordo com cada cultura e modelo de negócio.
Por terem vivenciado educação mais fluida desde cedo, os Alfas possuem uma preferência natural por formatos híbridos de trabalho, entendendo os modelos 100% presenciais como uma espécie de ruptura na rotina. Se a Geração Z trouxe a pauta do equilíbrio entre vida pessoal e profissional, a Geração Alfa elevará a importância da flexibilidade.
Onde encontrar os talentos mais jovens
Para atrai-la, é interessante que as empresas estejam nos mesmos ambientes que eles. O RH já sabe que não faz sentido publicar vagas apenas no LinkedIn para talentos muito jovens, também é preciso estar visível nas ferramentas de busca por IA e entender a lógica algorítmica de plataformas como o TikTok, Instagram e YouTube. Para esta geração, a busca no Google vai se tornando um exercício cada vez mais distante, em prol da cultura da busca em redes sociais, ChatGPT, Gemini, Claude, plataformas de jogos, entre outros.
A experiência de recrutamento também deve ser repensada: se o jovem consome produtos por meio de influenciadores e se relaciona, enquanto joga, em ambientes como Roblox, Minecraft e Fortnite, é lá que a marca empregadora deve plantar algumas sementes.
No campo da gestão, de novo, o grande desafio é a formação da liderança para receber esses jovens. Os gestores precisam ser treinados para oferecer feedbacks contínuos e canais abertos de diálogo, já que essa geração não tolera silêncio ou falta de clareza. O RH dá suporte aqui ao implementar práticas que foquem em confiança e respeito mútuo. É fundamental preparar os líderes para gerirem pessoas que, embora mais aculturadas com IA, podem precisar de mentoria em habilidades de comunicação e resolução de conflitos face a face, equilibrando o avanço tecnológico com a necessidade de conexão humana.
Uma pesquisa da Companhia de Estágios, “O Perfil do Jovem Aprendiz”, mostrou que 76% dos respondentes entre 14 e 17 anos, disseram não ter dificuldade em trabalhar com pessoas mais velhas. Ou seja, o cenário multigeracional já está posto (e é irrefreável).
O que o RH deve priorizar?
Como conselho prático, recomendo aprender sobre as referências e o comportamento das novas gerações. E tratá-las como “bicho de sete cabeças” traz o risco de que se estabeleça um vácuo de cultura e comunicação na empresa.
Questões como segurança da informação e o comportamento ético digital entram no topo da lista de prioridades nos treinamentos. Em uma era de superexposição, onde “tudo se printa, tudo se grava e tudo se joga em chats de IA generativa”, o onboarding deve ser extremamente cuidadoso quanto ao compliance e ao tratamento de dados. É preciso educar sobre os limites entre a vida pública digital e a privacidade corporativa. Ajudar a estabelecer regras claras, códigos de ética e de convivência, bem como canais de denúncia anônimos, prezando por um ambiente saudável e de seriedade no que diz respeito à integridade psicológica dos colaboradores são diretrizes que ganham enorme importância.
Neste sentido, recomendo a realização de um onboarding gradual. Não jogue o jovem no turbilhão da empresa no primeiro dia. Apresente a cultura, os valores e, principalmente, as diretrizes de segurança de forma didática, acolhedora e faseada. Reforce os acordos de confiança e explique a importância de cada processo. Essa geração valoriza a verdade, trocas honestas sobre as expectativas do negócio e as possibilidades reais de crescimento criam um vínculo de lealdade diferenciado.
O futuro do trabalho já começou
Os jovens querem entender o seu papel na engrenagem e enxergar contribuição e impacto no dia a dia do trabalho. E trabalhar (ou não) com eles não será uma escolha. Segundo o Fórum Econômico Mundial, até 2034, trabalhadores Millennials, da Geração Z e da Geração Alfa irão compor 80% do mercado de trabalho global. Para conhecer e influenciar a geração vindoura, o RH terá de caminhar ao lado dela, num percurso de aprendizado e conhecimento mútuos.
Os profissionais da geração Alfa irão ganhar maturidade e musculatura a partir das experiências que proporcionamos a eles. Temos o dever de guiá-los com referências sólidas, ensinando que liberdade e responsabilidade são dois lados de uma mesma moeda. Estamos construindo o futuro do trabalho agora, e a Geração Alfa é o ingrediente que irá acelerar essa transformação rumo a um mercado mais colaborativo, inovador e, acima de tudo, focado nas pessoas.
