Tecnologia

Apenas 36% das empresas mudaram políticas de TI para dar suporte aos colaboradores

RH precisa investir em “People Analytics” para ter papel estratégico no planejamento das organizações

A transformação digital é um processo que vai muito além de agregar novas tecnologias às atividades da empresa. Trata-se de uma mudança mais profunda e significativa em relação à operação da organização. Nesse processo, a tecnologia ocupa um papel fundamental, mas ela deve vir acompanhada de uma mudança cultural para que sua implementação seja eficaz.  

A pesquisa 2020 Intelligent Workplace Report, realizada em 19 países com 1350 executivos pela NTT Ltd., empresa internacional de tecnologia, revela que a pandemia tem colocado o bem-estar dos funcionários como uma das prioridades das empresas. Porém, poucas companhias têm realizado mudanças tecnológicas para auxiliar o trabalho de seus colaboradores.

90% das empresas no Brasil apontam que as necessidades dos funcionários estarão no centro das futuras estratégias de trabalho. No entanto, elas têm feito pouco pelos seus funcionários em relação à tecnologia. O relatório revelou que apenas 36% das organizações avaliadas mudaram suas políticas de TI para oferecer mais suporte ao colaborador com o trabalho remoto.

Em muitos casos, mostra o estudo, os funcionários usam os próprios dispositivos e aplicativos para fins corporativos, o que aumenta o risco de vulnerabilidades e brechas de segurança. Apenas 48% das organizações aumentaram os recursos de segurança de TI, seja para manter os dados da companhia seguros ou dos colaboradores. Outro dado relevante é que somente 44% das organizações avaliadas implantaram novas ferramentas de comunicação e produtividade.

Daniela Gärtner, Sr Human Resources Director – Latam da NTT Ltd., diz que, em boa parte das empresas, o processo de transformação digital vinha sendo feito gradativamente, seja pela falta de recursos, seja porque não era a prioridade na ocasião. “De repente, todos se viram forçados a trabalhar num modelo totalmente diferente. Por isso, muitas empresas ainda estão nesse processo de adaptação, apoiando-se nas ferramentas dos próprios colaboradores enquanto aperfeiçoam, investem e disponibilizam toda a infraestrutura necessária para oferecer um ambiente mais adequado ao funcionário em home office”, afirma.

Para José Carlos Figueira, diretor do Energy Group, consultoria especializada na otimização de custos empresariais, a pandemia agilizou processos em curso e o que está faltando hoje é uma integração das soluções. “As empresas estão fazendo transformações digitais adotando ferramentas tecnológicas de maneira isolada, sem um projeto de integração digital”.

“Estão florescendo agora as HRTechs, mas a maioria delas ataca problemas pontuais, resolve problemas de processos, mas estão longe do que deveria ser feito nas empresas. São tiros isolados sem sinergia”, defende.

Para que a transformação digital aconteça nas empresas é preciso investir em  mudança cultural; promover o desenvolvimento de habilidades; avaliar processos e renovar o fluxo de trabalho com base em tecnologia e experiência do usuário. “A transformação digital passa por uma mudança cultural. Qualquer iniciativa de digitalização estará fadada ao fracasso se não contar com o engajamento das pessoas. Se elas não acreditarem que as mudanças serão benéficas, o processo não evolui”, destaca o diretor.

Obstáculos e “People analytics”

Ao implantarem soluções, há uma preocupação das empresas com o esforço que elas terão que realizar no estabelecimento desses processos. Organizações enxutas, por exemplo, têm menos pessoal e por isso se faz ainda mais necessária a análise dos custos e do trabalho necessário para a digitalização.

“Normalmente faltam recursos internos (financeiros e humanos) nas organizações, principalmente pessoas que possam conduzir essas mudanças. Por isso, é importante que quem se propõe a resolver o problema da digitalização ofereça as ferramentas e o suporte para a implantação e conduza esse processo”, pontua Figueira.

De acordo com o executivo, uma área que necessita de digitalização no RH é a Gestão de Benefícios. “Fizemos uma pesquisa e 95% das médias e grandes empresas fazem essa gestão com planilhas de Excel, que consomem muita mão de obra e geram muitos erros, os quais resultam em uma maior insatisfação dos funcionários vítimas desses erros”. 

Já em relação ao papel das lideranças no processo de transformação digital, ele defende que elas possuem responsabilidades contraditórias e por isso torna-se difícil a inovação. Ao mesmo tempo em que os líderes devem manter a estrutura funcionando e a operação da sua área, também devem trazer novas soluções. “Como eles serão cobrados pela manutenção do funcionamento dos seus setores, acabam deixando em segundo plano a inovação”, afirma.  

Para o diretor do Energy Group, o RH não pode ser meramente um executor, mas precisa fazer “People Analytics”, ou seja, ter a capacidade de reunir informações em um só local para analisá-las e assim gerar uma visão mais estratégica do papel de cada colaborador dentro de uma empresa. “Os RHs têm que ter espaço na gestão estratégica das empresas, mas para isso precisam dispor de dados que os permitam embasar suas sugestões. Precisam sair do papel de ‘apagadores de incêndios’ e adotar um protagonismo no processo estratégico de digitalização”.

“Cabe agora às instituições ouvir os seus colaboradores, ver quais são suas necessidades, orientar e oferecer todos os recursos necessários para que ele tenha, em casa, a mesma produtividade e segurança do escritório. É um processo gradual, mas que tem tudo para dar certo”, conclui Gartner. (por Raul Galhardi)

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