Quando se fala em feedback, um roteiro quase automático vem à cabeça: o gestor chama para conversar, alguém ouve que “precisa melhorar” e sai dali carregando nos ombros um problema que talvez nem tenha começado nele. A questão pode ter nascido antes, em um processo mal desenhado, na decisão desalinhada ou no ruído entre áreas que atrapalha o andamento do trabalho. É nesse ponto cego do feedback, e também rico em oportunidades, que mora a inovação. Mais do que ensinar líderes a dar retornos melhores, a verdadeira inovação em RH passa por transformar escuta em inteligência, usando o que cada devolutiva revela para enxergar as falhas que a própria organização produz, como se fosse uma lente de aumento.
Mas viradas de chave como essa não acontecem só porque a empresa decidiu ouvir mais as pessoas. É preciso método. Quando o feedback deixa de ser um evento isolado no calendário e passa a funcionar como fluxo contínuo, ele se aproxima do que a gestão chama de sensemaking. Em termos práticos, é o esforço de organizar sinais dispersos, como comentários, percepções, incômodos e alertas, para entender o que eles dizem sobre a forma como a empresa trabalha. Existe algum padrão? Qual é a causa? Em qual contexto aquilo aparece? O RH precisa saber.
Não à toa, quando o feedback entra na agenda da inovação, o RH começa a migrar da lógica da simples coleta de informações para a da interpretação, mais próxima de people analytics do que de uma conversa anual de avaliação. A diferença parece sutil, mas é decisiva. Em vez de perguntar, de forma isolada, se a entrega aconteceu, passa-se a analisar o que o conjunto desses retornos revela sobre o desenho do trabalho na organização. Escutar, então, vira método – e é dele que nasce a inteligência organizacional.
Quando o problema deixa de caber na pessoa
O feedback individual não morreu. O ponto é que, embora continue necessário, ficou pequeno para explicar tudo o que acontece nas empresas. Se, por décadas, ele coube inteiro em uma sala fechada, entre quem avalia e quem é avaliado, hoje já não cabe mais. Como o trabalho acontece em rede, passou a depender de áreas que nem sempre conversam, mas que, mais do que nunca, precisam se alinhar. E aí, quando a entrega trava, o gargalo raramente está só em quem entrega. É por isso que a pergunta já não pode ser apenas “quem falhou?”, mas também “onde o caminho ficou confuso?”.
Foi nessa fronteira que Aline Almeida, gerente de People & Organization da Novartis Brasil, passou a enxergar os limites do modelo herdado, “centrado apenas na relação líder-colaborador”, que, segundo ela, “já não é suficiente para explicar a complexidade do trabalho atual”. Em um ambiente interdependente, a performance nem sempre começa, ou termina, na pessoa. Às vezes, o que aparece como falha individual é, na verdade, efeito de uma sequência de desencontros, da prioridade mal comunicada à decisão que chega tarde demais.

da Novartis
Limitador ou impulsionador?
Há ainda uma segunda mudança de eixo que precisa ser tangibilizada: o tempo verbal do feedback. Em vez de um veredito sobre o que já passou, Aline defende um retorno virado para a frente, que prepara a pessoa para os próximos desafios e conversa com o contexto do negócio. Na prática, isso exige uma troca de mentalidade: deixar de “avaliar pessoas” para entender como o sistema impulsiona ou limita quem trabalha nele. É essa leitura que sustenta, na Novartis, uma cultura que a executiva traduz em três palavras: autonomia com responsabilidade.
A régua antiga já não mede o trabalho novo
A mudança, porém, não é só de método. Os tempos também mudaram. Waleska Cunha, vice-presidente de Gente & Cultura da Vitru Educação, lembra que, no pós-pandemia, questões como inteligência artificial, dispersão geográfica e diversidade tornaram as empresas mais colaborativas e, por consequência, mais dependentes da interação entre áreas. Um cenário que, sem dúvida, tem exigido do RH mais inovação, inclusive na forma de construir, interpretar e devolver os processos de feedback.
Nesse (re)desenho organizacional, a régua antiga já não corresponde à realidade e pode enganar. “O que antes podia ser interpretado apenas como baixa performance, hoje, muitas vezes, revela desalinhamentos entre áreas, falhas de processo, excesso de centralização ou ausência de clareza”, observa. O recado é direto: quando um colaborador relata alguma dificuldade, na maioria dos casos, ele apenas está dando rosto a um problema que é de todos. Agora, segundo Waleska, se o RH tem isso em mente, a conversa deixa de ficar limitada a um comportamento individual e passa funcionar como uma “ferramenta de leitura da empresa”.

da Vitru
A IA, aliás, entra aqui com um paradoxo. Sim, ela trouxe velocidade e dados, permitindo enxergar padrões de clima, turnover e engajamento em escala, mas, nesse mesmo movimento, aumentou a necessidade de interpretação humana. Afinal, números não explicam sutilezas emocionais ou relacionais. No fundo, a tecnologia até ajuda a enxergar esses padrões, mas não resolve, sozinha, a pergunta mais difícil: o que eles dizem sobre a forma como as equipes trabalham juntas? Para Waleska, a resposta mora justamente aí. É preciso entender como os times se conectam, decidem e executam, indo além da simples avaliação individual.
Do calendário ao cotidiano
Se o trabalho mudou, o feedback também precisa mudar. Ele não pode acontecer só quando chega a hora de avaliar alguém. Em organizações que funcionam em rede, o retorno precisa acompanhar o ritmo do cotidiano e ganhar frequência, estando presente nos ajustes de rota, nas dúvidas sobre prioridades e nos pontos em que a colaboração entre áreas começa a falhar. É por essa lógica que Livia Osbi, diretora de People da BASF, defende que o feedback “deve ir além da performance individual e funcionar como um mecanismo contínuo de escuta e desenvolvimento integrado à cultura” – chamada internamente de Cultura Vencedora.
Por lá, esse olhar “contínuo e agregado” se apoia na segurança psicológica para revelar como as equipes percebem a liderança, a cultura e as condições reais de trabalho. É esse retorno genuíno, sustentado pela confiança, que rende o que a executiva chama de “inteligência estratégica”: uma leitura capaz de apoiar o desenvolvimento das lideranças a partir da visão das equipes, funcionar como termômetro vivo da cultura e abrir espaço para que as pessoas proponham melhorias. Dessa forma, mais do que avaliar, o feedback passa a catalisar transformações alinhadas à estratégia e a criar terreno para a inovação acontecer.

da BASF
Quando a escuta vira mapa da organização
Um feedback pode dizer muito sobre uma pessoa. É fato. Vários, lidos em conjunto, começam a dizer algo sobre a empresa. É quando os retornos deixam de ser tratados um a um que surge o que Waleska Cunha, da Vitru, chama de inteligência organizacional: uma leitura mais poderosa sobre como a organização realmente funciona, e não apenas sobre como ela imagina funcionar. Nesse mapa, os padrões aparecem com mais nitidez, sublinhando onde a liderança fortalece ou bloqueia a colaboração, quais áreas concentram mais ruído, como as decisões acontecem na prática e quais comportamentos a cultura reforça sem perceber.
A mudança, portanto, não está apenas em ouvir mais. Segundo Waleska, está em cruzar informações, o que demanda escuta ativa, análise de tendências e capacidade de traduzir percepções em ações concretas para o negócio. E aqui vai um exemplo para aterrar a ideia. Se diferentes áreas reclamam de atraso, desgaste e retrabalho, talvez o problema não esteja em uma única pessoa, mas no modo como a empresa decide, aprova e distribui responsabilidades. Nesse tipo de leitura, o feedback funciona menos como avaliação e mais como diagnóstico do trabalho. A partir daí, a empresa consegue simplificar fluxos, redistribuir as responsabilidades e devolver autonomia às áreas, com ganhos em agilidade e clima.
Ignorar esses sinais, por outro lado, pode sair caro. Além de desacelerar o trabalho, a empresa desgasta as equipes e desestimula justamente os talentos que gostaria de reter e impulsionar. Não há cultura de inovação que sobreviva por muito tempo a uma realidade assim – menos ainda quando a falta de respostas esvazia a confiança no próprio feedback. “Culturas onde os problemas sistêmicos não são tratados acabam criando um ciclo de desmotivação, baixa colaboração e decisões cada vez mais lentas”, reforça a executiva.
Do dado à decisão
Mas esse cruzamento de informações não pode acontecer de forma improvisada. Na Novartis, pesquisas como a Our Voice ajudam a olhar para o trabalho em camadas: o quanto as pessoas se sentem seguras para falar, como percebem as decisões da liderança e onde a conexão entre áreas funciona, ou começa a falhar. Mesmo quando os índices de engajamento ficam acima do benchmark, a comparação entre níveis e áreas ajuda a mostrar onde o RH precisa agir com mais precisão. E, com estratégia, a área de pessoas muda definitivamente de papel.
Em vez de apenas organizar conversas ou acompanhar percepções soltas, o RH passa a ler esses retornos como parte do negócio, e não como algo paralelo a ele. Como resume Aline Almeida, é nesse ponto que ele deixa de ser um facilitador de conversas para atuar, também, como “tradutor de dados qualitativos em decisões de negócio”. Essa é a diferença fundamental entre apagar incêndios e entender por que eles começam.
O termômetro também mede a cultura
Entretanto, nem todo dado sobre feedback aponta apenas para falhas em processos ou decisões. Às vezes, ele revela algo mais profundo: o modo como a cultura se materializa no dia a dia. Um comentário pode mostrar se há clareza nas metas, se uma decisão chega na velocidade necessária ou se os conflitos são resolvidos antes de virarem desgaste. Não à toa, para Livia Osbi, diretora de People da BASF, o feedback funciona como um verdadeiro “termômetro cultural”, capaz de indicar, entre outras coisas, a eficácia da comunicação interna, o alinhamento das equipes aos valores da companhia e a saúde do clima organizacional.
Essa leitura importa porque impede que tudo volte para a conta da pessoa. Se alguém não entrega, a pergunta não pode parar no desempenho individual. Antes de concluir que faltou preparo, compromisso ou produtividade, é preciso entender se a meta estava clara, se a decisão chegou a tempo, se havia autonomia para agir ou se o próprio desenho do trabalho criou obstáculos. Para Livia, transformar percepções em leitura estratégica passa, justamente, por esse diagnóstico: diferenciar aquilo que depende do desenvolvimento da pessoa daquilo que exige mudança no ambiente ao redor dela. Sem esse filtro, o feedback acaba responsabilizando pessoas por problemas que nasceram na própria organização. Com ele, por sua vez, fica mais fácil enxergar o que realmente precisa mudar.
A armadilha de corrigir pessoas quando o sistema falha
Sem dúvida, o feedback também pode errar de alvo. Embora seja uma ferramenta criada para desenvolver pessoas – e uma fonte importante de inovação para o RH –, ele pode acabar cobrando do indivíduo respostas para problemas que nasceram em outro lugar. É essa armadilha que Waleska Cunha, da Vitru Educação, ajuda a nomear. Muitas vezes, o colaborador não está simplesmente “performando mal”, mas tentando trabalhar dentro de um ambiente que dificulta a própria entrega.
Por isso, a pergunta da liderança precisa ir além da performance pura e simples. Não basta querer saber “o que essa pessoa precisa melhorar”. É preciso entender, também, o que, no contexto, está dificultando a melhor performance dela. “O feedback não pode ser usado apenas para responsabilização individual. Ele precisa gerar reflexão sobre liderança, processos, estrutura e cultura. Empresas mais maduras entendem que performance é resultado da combinação entre talento individual e contexto organizacional”, afirma.
Segurança para apontar e corrigir
Existe uma razão cultural por trás dessa armadilha. Como ela explica, durante muito tempo, o líder precisou parecer aquele que tem todas as respostas e mantém tudo sob controle. E, nesse cenário, admitir uma falha poderia soar como fraqueza. “Muitas vezes, é mais simples individualizar o problema”, observa. Mudar isso, defende a executiva, é tarefa da área de pessoas. Cabe a ela criar segurança para que apontar um problema sistêmico seja reconhecido como sinal de maturidade, e não de fragilidade.
Na prática, isso significa valorizar líderes que identificam causas estruturais, resolvem problemas na origem e usam dados para tirar a conversa do campo pessoal. Porque, quando o feedback só cobra execução, ele pode até corrigir um comportamento, mas dificilmente melhora o sistema que fez aquele comportamento surgir.

O antídoto está em cruzar sinais
Mas para o feedback não virar uma cobrança disfarçada, ele precisa ser lido junto com outros sinais. Uma devolutiva isolada pode até indicar um ponto de desenvolvimento, enquanto várias devolutivas, cruzadas com pesquisas, fóruns e conversas coletivas, ajudam a lançar um olhar mais sistêmico sobre a organização. Na Novartis, esse é um cuidado central. Aline Almeida alerta que, “se o feedback for tratado apenas no nível individual, há uma tendência de transformar problemas estruturais em mensagens individuais”. Para evitar essa armadilha, a empresa cruza diferentes fontes e leva o tema a fóruns como os Talent Reviews e a pesquisa Our Voice, onde fica mais fácil distinguir desenvolvimento individual de ajuste organizacional.
Não por acaso, esse desenho também cobra maturidade de quem lidera. Reconhecer que o desempenho de um time não melhora só com cobrança, mas quando se passa a “reduzir ruídos, simplificar o modelo e aumentar a clareza”, como pondera Aline, é admitir que parte da solução está nas mãos da própria liderança. O feedback, então, deixa de ser um espelho apontado apenas para a pessoa e vira um convite para a organização também se olhar.
Segurança psicológica não é detalhe
Do mesmo modo, essa engrenagem só funciona se as pessoas se sentirem seguras para dizer o que pensam e apontar o que realmente está travando o trabalho. Por isso, antes de virar dado, o feedback precisa encontrar terreno para abastecer a inovação em RH. Na BASF, por exemplo, é por essa chave que Livia Osbi defende a segurança psicológica somada a um mindset de melhoria contínua como solução. “O colaborador precisa ter a certeza de que pode apontar oportunidades ou prioridades conflitantes de forma segura, bem como identificar a oportunidade de assumir a responsabilidade pela busca de soluções”, destaca.
Nesse cenário, não dá mais para o RH ser somente o guardião do processo. Seu papel é maior e mais analítico: mediar a conversa, apoiar as lideranças e ajudá-las a separar o que pede desenvolvimento individual do que exige mudança nas condições oferecidas pela própria organização. O foco, então, deixa de ser a culpa e se aproxima da aprendizagem. Como resume Livia, “deixamos de perguntar ‘o que você fez de errado’ para questionar ‘o que podemos aprender com a experiência para que funcione melhor no próximo ciclo’”.
Quando ouvir não basta
No fim, diagnóstico que não se traduz em decisão acaba virando estatística. O último salto do feedback, por isso, é metodológico: além de mudar a pergunta, é preciso mudar o que se faz com a resposta. Ouvir, portanto, é só a primeira parte. Para gerar mudança, o RH precisa combinar diferentes formas de escuta, entender o contexto por trás das percepções e buscar a raiz do que aparece nesses retornos.
Na Novartis, Aline Almeida organiza esse caminho em três tempos: coletar, interpretar e agir. Coletar, nesse caso, não se resume a aplicar pesquisas pontuais; envolve pulse checks, fóruns estruturados e a escuta do dia a dia. Já interpretar é procurar padrões e sintomas, mais perto de people analytics do que de uma planilha. E agir é o que fecha o ciclo, porque, como pontua a executiva, “o feedback só gera valor quando se traduz em ação”. Na prática, isso significa discutir os resultados com a liderança, definir planos claros e voltar aos colaboradores para mostrar o que mudou a partir do que disseram. É esse retorno que realimenta a confiança no processo.
A ação começa na rotina
Agir, portanto, não pode ser uma etapa distante, acionada só depois que a pesquisa acontece e o relatório fica pronto. Segundo Livia Osbi, da BASF, para que não morra na planilha, o feedback precisa encontrar canais abertos, conversas frequentes e espaços de diálogo. É por esse caminho que ela defende a importância de “traduzir esses relatos em inteligência qualitativa” – não para alimentar painéis, mas para transformar o que foi ouvido em ações concretas. A palavra-chave, aqui, é continuidade. “A transformação mais urgente para o RH é garantir que a escuta não seja um fim em si mesma”, afirma Livia.
A responsabilidade, então, chega à liderança. Cabe a quem lidera assumir o que ouviu e construir, junto às equipes, planos de ação sobre o que foi dito. É assim que o feedback deixa de ser um rito de avaliação e ajuda a criar um ambiente mais aberto ao pensamento inovador e à adoção de novas soluções. Afinal, sem essa devolução, a escuta vira ritual. E ritual que não muda nada cansa todo mundo, até o líder.
A devolutiva é onde a confiança se decide
No fim, tudo se decide na devolutiva. Waleska Cunha, da Vitru, lembra que, quando o colaborador fala e nada acontece, a confiança no processo evapora, e que “as pessoas precisam perceber que aquilo que elas falam gera consequência, aprendizado e mudança real”. É por isso que ela enxerga o feedback menos como ferramenta de RH e mais como instrumento de gestão, cultura e estratégia.A síntese de Waleska serve de bússola para essa virada. “O futuro do feedback não está apenas em ouvir mais. Está em transformar escuta em ação”, finaliza.
Qual será, então, o futuro do feedback? Mais do que falar melhor com cada pessoa, tem a ver com escutar melhor a própria organização. Embora atuem em setores diferentes, Novartis, Vitru e BASF apontam para a mesma direção: em vez de um veredito sobre o indivíduo, o feedback ganha força como inteligência sobre o trabalho e matéria-prima para a inovação. E já não termina quando a porta da sala se fecha. Continua nos padrões que o RH aprende a ler, nas decisões que precisam ser revistas e nas ações que dão sentido à escuta.
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