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No Melhor RH Innovation, a experiência do colaborador está no coração do RH

Transpetro, Instituto Ahlma e Alelo mostram como o RH pode transformar a experiência do colaborador com mais estratégia, proximidade e consistência

de Priscila Perez em 9 de julho de 2026
RH e a experiência do colaborador Entre dúvidas, processos e expectativas, o RH ajuda a organizar caminhos mais simples para a experiência do colaborador

Pense na última vez que você precisou do RH. Talvez fosse uma dúvida sobre férias ou um contracheque que não fechava. Não foi diante de um mural nem durante um discurso mais institucional que a gestão mostrou a que veio, mas na resposta dada aos desafios, ou na demora em dá-la. É nesse momento quase invisível que a experiência do colaborador ganha ou perde sentido, e é ali mesmo que o RH confirma, ou desmente, o que promete. Inovar nessa relação, portanto, não tem só a ver com adicionar tecnologia a processos: é preciso desenhar cada ponto de contato com clareza e cuidado. O mais importante disso é que, quando essa lógica amadurece, o que fica não é só a resposta, mas a forma como ela chega às pessoas.

Foi por essa lente que os projetos reunidos aqui, de segmentos tão diferentes, ganharam destaque na segunda edição do Melhor RH Innovation, nas categorias Employee Experience e Serviços de RH. Mas, afinal, o que eles têm em comum? Todos esses cinco cases mostram que a experiência do colaborador não nasce do discurso, muito menos de um RH que promete inovação sem praticá-la, mas do modo como a empresa lidera, responde e decide de verdade.

Vencedora em Employee Experience e eleita Marca Destaque do Ano, a Transpetro preparou profissionais para os desafios da primeira liderança, levou o atendimento de RH a terminais e navios e usou a inteligência artificial para ampliar o alcance das respostas, sem retirar o “humano” da conversa. Já o Instituto Ahlma, primeiro lugar em Serviços de RH e também destaque em Employee Experience, partiu da transformação cultural para redesenhar práticas, relações e processos. A Alelo, por sua vez, outro expoente na categoria, reuniu pesquisas, indicadores e percepções para enxergar onde a jornada avançou e onde ainda precisava mudar.

Transpetro: a primeira liderança começa em mar aberto

Poucos momentos pesam tanto na carreira como os primeiros passos rumo à liderança –quando alguém deixa de responder apenas pelo próprio trabalho e passa a conduzir um time inteiro. A competência técnica que abriu caminho até ali, de repente, já não basta: é preciso ouvir, saber delegar, administrar conflitos e, ainda por cima, tomar decisões que repercutem no trabalho dos outros. Foi esse ponto de virada que a Transpetro decidiu tratar com método e empatia por meio do projeto Inspirando Novas Lideranças (INL), etapa inicial de sua jornada de desenvolvimento de líderes.

Voltado a técnicos que assumem a gestão de pessoas, profissionais com até dois anos na função e nomes considerados para sucessão, o programa foi desenhado para aproximar a formação de lideranças dos verdadeiros dilemas de quem começa a liderar. Afinal, é justamente nesse ponto, antes da primeira decisão do novo gestor, que a experiência do colaborador começa – ou deveria começar – a ser moldada pelo RH.

Simulador testa a liderança

Em um dos exercícios, os participantes entram no simulador marítimo da companhia para manobrar um navio petroleiro sob chuva, mar agitado e outras condições adversas. O cenário pode ser virtual, mas a pressão sobre o grupo não é. E quando o imprevisto se soma à urgência de comunicar uma decisão, administrar divergências e manter a equipe atuando de forma coordenada, cada escolha ganha um peso ainda maior.

É nesse ambiente, em que o roteiro não tem respostas prontas, que o exercício revela como cada participante reage e se posiciona diante das incertezas. Depois vem o debriefing, quando a adrenalina cede espaço à análise e o grupo revisita, em conjunto, as decisões dadas sob pressão, transformando as hesitações e os conflitos em material de aprendizagem. É o tipo de lição que um slide pode até explicar, mas dificilmente consegue produzir.

Quando a teoria precisa virar decisão

A simulação é o ponto mais cinematográfico do INL, mas não sustenta o programa sozinha. Encontros presenciais e virtuais, atividades de autoconhecimento, avaliação de perfil e trocas entre colegas compõem uma jornada adaptada a diferentes níveis de experiência na gestão. O formato híbrido importa, mas a força do projeto está menos na combinação de modalidades e mais na tentativa de aproximar o desenvolvimento desses novos líderes das situações que eles encontrarão no dia a dia.

Dessa forma, em vez de apenas acumular conteúdo teórico, o participante é colocado diante de situações desafiadoras e pouco previsíveis, nas quais o tempo é curto e cada decisão é construída sob pressão. E isso tudo tem muito valor na formação de lideranças, como bem destaca Ésio Malafaia, gerente setorial de Desenvolvimento de Líderes na companhia. “Acreditamos que a aprendizagem se concretiza na aplicação prática do conhecimento. Essa abordagem torna a transição para a liderança mais consistente, porque prepara o profissional não só para gerir processos, mas para lidar com pessoas e desafios reais”, pontua.

RH e experiência do colaborador
Ésio Malafaia,
da Transpetro

A inovação, aqui, não está no simulador ou no formato, porque ambos seriam insuficientes sem uma jornada capaz de conversar com as dores de quem estreia na gestão. Por isso, Ésio prefere falar em jornada de desenvolvimento mais completa, humana e conectada à realidade da liderança. “Ao combinar momentos virtuais e presenciais, soft skills, autoconhecimento, trocas de experiência, dinâmicas e networking, o INL fortalece a formação das lideranças desde a base, oferecendo aprendizado prático, acolhimento e conexão entre pares”, reforça. Essa reflexão é importante porque mostra que o projeto não tenta reproduzir a rotina em palavras. Em vez disso, ela cria situações nas quais o participante precisa se posicionar, lidar com o efeito de suas escolhas e entender como será percebido por quem estiver sob sua liderança.

O RH entra em cena

O lugar ocupado pelo RH segue a mesma lógica. A área não se limitou à organização do projeto, participando ativamente do desenho dessa jornada. Segundo Ésio, coube ao RH observar as necessidades dos grupos, utilizar indicadores para ajustar o percurso e conectar a preparação dos novos gestores a questões mais amplas de cultura e engajamento. Para ele, “o papel do RH foi decisivo ao atuar como agente de transformação”, incentivando o protagonismo das lideranças. A frase, sozinha, poderia soar até institucional, mas o que lhe dá concretude é o trabalho realizado antes e depois de cada turma, com base em escuta e mensuração. O acompanhamento, segundo ele, é essencial para gerar melhorias constantes.

Na segunda edição do Innovation, o INL conquistou o primeiro lugar em Employee Experience e também apareceu entre os destaques da categoria Desenvolvimento de Lideranças. Esses dois reconhecimentos são importantes porque ajudam a revelar a dupla natureza do programa. De um lado, ele cuida da passagem de profissionais para a primeira gestão. De outro, prepara pessoas que terão influência direta sobre a rotina de trabalho de equipes inteiras. O alcance, portanto, não termina em quem participa da formação.

O índice que ajuda a ajustar a rota

Para se ter ideia, quem participa do programa sai satisfeito com a experiência. Uma pesquisa aplicada durante o encerramento presencial, na Universidade Corporativa da Transpetro, no Rio de Janeiro, mostrou que grande parte dos participantes aprovam o INL – 72% deles se declararam muito satisfeitos. Nas respostas abertas, a imersão, os encontros presenciais e a troca entre colegas apareceram entre os pontos mais valorizados.

Por outro lado, o levantamento também indicou onde o programa pode avançar, com mais atividades presenciais e maior espaço para discutir problemas reais. Ao refletir sobre os próximos passos, Ésio resume o aprendizado: “uma jornada de desenvolvimento efetiva vai além do conteúdo: ela precisa gerar conexão, confiança e troca”. É assim, ouvindo o que as pessoas têm a dizer, que o RH trata a experiência do colaborador como uma prática contínua de ajuste, e não como um projeto eventual.

RH com você na Transpetro

Se o INL mostra como o RH pode a influenciar a experiência do colaborador ao preparar quem assume uma equipe, o case RH com Você, destaque nas duas categorias,levaessa preocupação para uma situação bem mais frequente: o momento em que qualquer empregado precisa de orientação. Em uma companhia com operações distribuídas pelo país e profissionais que trabalham em unidades, terminais e navios, ser acessível é uma questão de sobrevivência. E nem adianta falar em e-mail. É preciso vencer distâncias e reconhecer que existem rotinas diferentes para que o acesso ao RH não seja um privilégio de quem está perto da sede.

Não à toa, o ponto de partida foi tornar o acesso à área mais claro, próximo e confiável. Afinal, quando alguém procura o RH, a dúvida é só uma parte da demanda. Quem faz o apontamento é Natasha Sinno, gerente setorial de Atendimento e Sistemas de RH da Transpetro. “Quando o empregado procura o RH, ele não busca apenas uma resposta, mas uma experiência que transmita confiança, acolhimento e resolutividade. Ele quer saber com quem falar”, resume.

RH e experiência do colaborador
Natasha Sinno,
da Transpetro

Proximidade como método

Para reduzir a distância, a Transpetro organizou o atendimento em torno de três bases: presença personalizada, suporte tecnológico e conhecimento acessível a quem atende. O resultado mais visível foi a implementação de 16 pontos focais nas cinco regiões do país e, também, em navios, somados a visitas itinerantes a terminais e embarcações. Assim, além de poder procurar o RH presencialmente, ele também ganhou opções como Teams, videoconferência, telefone, WhatsApp e atendimento virtual. Mas a multiplicação de canais não era o objetivo final, como ela bem pontua. “A intenção era transformar cada interação com o RH em uma experiência de valor para o empregado”, sintetiza.

O desafio, portanto, era fazer com que cada contato levasse a uma orientação confiável, sem obrigar o empregado a repetir o problema ou a descobrir sozinho qual caminho seguir. Segundo Natasha, diferentemente dos modelos tradicionais de atendimento interno, mais centralizados e transacionais, o RH com Você foi concebido para “colocar o empregado no centro da experiência e aproximar o RH da realidade da operação”. Na prática, o modelo tenta escapar de dois extremos comuns: de um lado, um atendimento humano, mas nem sempre acessível; de outro, uma automação ágil, porém limitada para reconhecer contexto, interpretar nuances e acolher demandas mais sensíveis.

E como funciona?

A base de conhecimento ajuda a padronizar informações, enquanto o Atendente Virtual absorve dúvidas recorrentes e mantém o serviço disponível a qualquer hora. Os profissionais, por sua vez, podem se concentrar em situações que exigem interpretação, escuta ou encaminhamento especializado. Para Natasha, é justamente esse equilíbrio que impede o projeto de ser reduzido a uma simples multiplicação de canais. “Transformar o atendimento em uma experiência consistente vai além da ampliação dos canais. Envolve presença, conhecimento e tecnologia para gerar valor”, observa.

Projeto aproxima o atendimento dos empregados, levando orientação, escuta e soluções a diferentes pontos da operação

Essa lógica também explica por que reuniões de acompanhamento, painéis de indicadores e análise da percepção dos empregados fazem parte do modelo tanto quanto as ferramentas. O atendimento, na Transpetro, não foi tratado como uma estrutura pronta, mas como um serviço vivo, que precisa ser ajustado à medida que as pessoas o utilizam – e que só se torna consistente quando consegue combinar acesso, qualidade da resposta e leitura do contexto.

De terra a mar, como padronizar

A geografia da companhia tornou essa revisão ainda mais importante. Uma dúvida apresentada presencialmente em uma unidade e outra enviada de um navio não deveriam receber níveis diferentes de atenção, precisão ou acolhimento. Garantir essa uniformidade sem transformar o contato em uma resposta impessoal foi uma das partes mais delicadas do percurso. Para Natasha, a solução não estava em escolher entre proximidade ou escala. “A construção de uma experiência consistente depende da atuação integrada entre pessoas, processos e tecnologia”, observa.

Os resultados indicam um importante avanço nessa combinação. Em 2025, o índice de resolutividade dos chamados chegou a 96%, o maior patamar histórico registrado pelo serviço. Na comparação com 2024, a parcela de avaliações positivas cresceu 7 pontos percentuais, enquanto as negativas recuaram 6 pontos. Os números não explicam sozinhos a experiência, mas mostram que a expansão dos canais veio acompanhada de uma melhora percebida por quem precisou usá-los.

Reconhecido tanto em Serviços de RH quanto em Employee Experience no Melhor RH Innovation, o case RH com Você ocupa, justamente, a fronteira entre essas duas agendas. É um serviço porque organiza canais, informações e respostas; mas também é experiência porque cada contato entre empresa e empregado deixa uma impressão sobre o quanto ela conhece, respeita e apoia suas pessoas. Natasha traduz essa diferença ao afirmar que “a excelência em atendimento não depende apenas da resolução da demanda, mas da forma como essa jornada é vivenciada pelo empregado”.

Transpetro – quando a inteligência artificial entra, o RH não sai

Com foco na experiência do colaborador, o desafio seguinte do RH foi fazer essa proximidade caber na escala de uma companhia com cerca de 5,3 mil empregado. O Atendente Virtual nasceu para ocupar esse exato espaço: disponível 24 horas por dia, recebe dúvidas recorrentes, consulta uma base estruturada de informações e oferece um primeiro caminho sem que o empregado precise esperar o horário comercial para resolver uma questão.

A proposta não era trocar pessoas por respostas automáticas, mas separar melhor o que pede agilidade daquilo que exige contexto. Natasha Sinno afirma que o “objetivo nunca foi substituir o atendimento realizado pelo RH, mas potencializá-lo”. É o que a companhia chama de humanidade aumentada, a tecnologia assumindo parte do trabalho para preservar “tempo humano”, onde ele realmente faz diferença.

E aí, enquanto o robô não vê contexto nem nuance, o atendente pode acolher e analisar cada situação com empatia e discernimento. “Essa visão transforma a IA em uma aliada da experiência do empregado, combinando agilidade, disponibilidade e padronização das informações com um atendimento humano mais estratégico e personalizado”, resume. A promessa de ganho não está simplesmente em falar com mais pessoas, mas em organizar melhor onde cada tipo de demanda deve chegar. Dúvidas objetivas podem ser resolvidas com rapidez; já situações que envolvem interpretação, exceção, conflito ou insegurança continuam dependendo de alguém capaz de escutar e decidir.

A escala vem em ondas

A ferramenta também não foi aberta a todos de uma só vez. Depois de aparecer como teaser na Feira de Carreira e de uma etapa de capacitação no Copilot Studio, passou primeiro por um grupo interno do próprio RH. A expansão ocorreu em ondas ao longo de 2025: alcançou 17% do público em setembro, 26% em outubro, 72% em novembro e chegou à cobertura total em dezembro. Entre uma liberação e outra, a equipe analisava as interações, atualizava conteúdos e ajustava o comportamento do agente, fortalecendo a confiança na ferramenta, ao mesmo tempo em que garantia uma interação mais consistente e personalizada.

Esse cronograma também é importante porque ajuda a desmontar a ideia de que, para implementar uma IA, basta escolher a ferramenta e colocá-la no ar. Para Natasha, a confiança depende de um trabalho bem menos visível, mas que dá sustentação a cada resposta. “Uma IA só entrega respostas confiáveis quando está apoiada em informações atualizadas, bem estruturadas e alinhadas às regras e processos da organização”, explica a porta-voz da Transpetro.

Na segunda edição do Innovation, o projeto apareceu entre os destaques de Serviços de RH, Tecnologia e Futuro do Trabalho – três categorias que revelam ângulos diferentes da mesma iniciativa. Como serviço, amplia o acesso ao RH; no papel tecnológico, depende de governança e aprendizagem contínua; já como sinal do trabalho que vem pela frente, testa uma divisão mais inteligente entre automação e atuação humana. Natasha evita tratar essa escolha como uma disputa entre pessoas e máquinas. “A tecnologia gera mais valor quando é utilizada para ampliar as capacidades humanas, e não para substituí-las”, finaliza.

Instituto Ahlma – uma questão de cultura

Depois de três projetos voltados à reorganização da rotina dos colaboradores, entra em cena o case ARGO, vencedor na categoria Serviços de RH e destaque em Employee Experience, que leva a discussão para uma camada menos visível, mas não menos importante – a cultural. Ao assumir o projeto ao lado da área de Pessoas da ARGO, o Instituto Ahlma ajudou a repensar a cultura da empresa que, naquele momento, já não mais correspondia à realidade. Uma troca de controle acionário, seguida de crescimento acelerado, mudou as estruturas, as relações e as expectativas em pouco tempo.

Embora os valores continuasse ali, já não explicavam com precisão quem a organização havia se tornado. Luiz Henrique Bin, cofundador da consultoria, resume a premissa que orientou o trabalho: “Cultura não se decreta, mas se escuta e se constrói junto”.

RH e experiência do colaborador
Luiz Henrique Bin,
do Instituto Ahlma

Querer, entender, definir, disseminar e treinar

O Design Thinking entrou menos como uma sequência rígida de etapas e mais como uma forma de inverter a lógica habitual: antes de definir o que a cultura deveria ser, era necessário compreender como ela já era vivida. No Instituto Ahlma, essa jornada é traduzida em cinco verbos – querer, entender, definir, disseminar e treinar –, e o primeiro deles foi decisivo para o caso da ARGO. Essa leitura foi, então, organizada em quatro relações – do colaborador com a empresa, com a liderança, com a cultura e consigo mesmo – para não reduzir a experiência a uma pesquisa de clima ou a um checklist de comportamentos desejáveis. “A transformação foi desenhada a partir da experiência real de quem vive o dia a dia”, complementa Luiz.

Squads multidisciplinares, formadas por profissionais de diferentes níveis hierárquicos, participaram desde a interpretação do diagnóstico até o redesenho das práticas. A escolha teve uma razão bastante concreta: quem ajuda a construir tende a reconhecer mais facilmente sua própria contribuição no resultado. Assim, a adesão começava durante a criação. “O engajamento já começava aí”, observa.

Escutar primeiro

Mas antes de propor novos valores, a consultoria combinou três formas de investigação. Uma pesquisa quantitativa ofereceu amplitude, conversas individuais com 40 profissionais trouxeram profundidade e a observação de dez rituais permitiu comparar o que as pessoas diziam com aquilo que efetivamente acontecia no cotidiano. A metodologia The Culture Factor ajudou a organizar essa leitura ao mapear como diferentes tipos de cultura eram percebidos dentro da empresa. A escuta, nesse caso, não entrou como etapa protocolar, mas como condição para evitar uma cultura de fachada – bonita no papel, mas distante da realidade.

“Foi isso que nos permitiu ver, sentir e ouvir a cultura que já estava ali, em vez de inventar uma do zero”, explica Luiz. A partir desse diagnóstico, a ARGO estabeleceu três referências culturais para sustentar sua estratégia: segurança, resultado e acolhimento. Os valores também foram revistos para dar linguagem comum a essa combinação.

Quando o RH assume a cultura

Segundo ele, o trabalho só ganhou forma porque o RH da ARGO assumiu a transformação como agenda interna, e não como uma entrega terceirizada, vinda de fora. A área abriu espaço para uma escuta verdadeira, envolveu as lideranças nessa transformação e levou a discussão para processos em que a cultura poderia ser testada de verdade, como onboarding, avaliação de desempenho e recrutamento. Assim, foi possível identificar que comportamentos a empresa desejava estimular e que práticas precisavam ser revistas. “O colaborador deixou de receber uma cultura pronta e virou coautor dela, e foi assim que um desafio de identidade virou uma solução intencional de experiência”, afirma Luiz.

Ao conectar essas decisões, o RH transformou a experiência do colaborador em parte prática da cultura, e não em consequência abstrata dela. “Quando o colaborador participa da definição dos valores, entra numa squad e ajuda a redesenhar os próprios processos, a mudança para de ser algo que o RH ou uma consultoria fez e vira algo que as pessoas são”, afirma Bin.

RH e experiência do colaborador
Quando o RH escuta, organiza e aproxima, a jornada do colaborador deixa de ser um emaranhado de processos

Indicadores passaram a revelar a cultura vivida de verdade

Não demorou muito para que os números mostrassem que a mudança já era percebida na rotina. “Muita gente ainda trata cultura como algo abstrato, mas quando a empresa decide de fato cuidar dela, isso aparece nos números”, observa. Em apenas um ano, o eNPS da ARGO, que mede o nível de satisfação das pessoas, avançou 18 pontos, enquanto a parcela de profissionais que dizia reconhecer a cultura desejada nas práticas da organização passou de 56% para 74%. Um indicador menos convencional também ajuda a enxergar o efeito emocional desse processo: a ansiedade, antes a segunda sensação mais associada ao trabalho, caiu para a sexta posição. As cinco emoções mais mencionadas passaram a ser satisfação, gratidão, motivação, otimismo e confiança.

Luiz Bin extrai desse percurso uma lição que vai além do próprio projeto: “inovar em cultura não é ter a ideia mais criativa, mas ter método pra escutar, cocriar e conectar a cultura aos processos, à estratégia e às lideranças e pessoas”. É essa conexão, somada à coerência, à consistência e à consciência sobre o que se vive no cotidiano, que dá sentido aos valores, novos ou antigos, e impede que se tornem frases emolduradas na parede. No case conduzido pelo Instituto Ahlma, a cultura ganha consistência quando as pessoas conseguem reconhecer, no trabalho de todos os dias, a empresa da qual escolheram fazer parte.

Alelo – um terrário para enxergar a jornada inteira

Depois de acompanhar a experiência do colaborador em diferentes pontos da rotina, a matéria muda de escala com a Alelo: em vez de resolver um contato específico, o RH tenta enxergar o percurso inteiro antes de decidir onde intervir. A mais recente atualização da Jornada da Pessoa Colaboradora e do Diagnóstico de Maturidade de EX acompanha essa relação desde o primeiro contato com a marca até a saída da organização. Como explica Carolina Ferreira, diretora de Pessoas, Marketing e ESG da Alelo, o objetivo não era produzir mais um mapa estatístico, mas descobrir em quais etapas a empresa havia avançado, onde os atritos permaneciam e quais temas deveriam disputar tempo, orçamento e atenção.

Representação divide a experiência em três dimensões

Foi essa mudança de finalidade que deu sustentação ao projeto, um dos destaques da categoria Employee Experience. “O principal diferencial foi tratar a experiência do colaborador como uma agenda estratégica para o negócio”, resume. Mas para tornar essa jornada menos abstrata e transformá-la em instrumento de gestão, a solução encontrada foi transformá-la em um terrário. É algo bastante visual que, segundo ela,” permite entender como diferentes experiências se conectam e influenciam a percepção das pessoas em cada etapa da sua relação com a Alelo”.

RH e experiência do colaborador
Carolina Ferreira,
da Alelo

O terrário da Alelo

Na parte superior, a mais visível, está a Experiência de Marca, formada por reputação, cultura, propósito e pela maneira como a organização se apresenta ao mundo, desde o mercado até os próprios colaboradores. Já no meio estão os elementos da Experiência Transacional, como proposta de valor, benefícios, modelos de trabalho, processos de integração e os combinados que organizam a vida profissional. A terra, por sua vez, representa a Experiência Psicológica, a camada em que confiança, pertencimento, comunicação e relação com a liderança criam, ou deixam de criar, raízes. É ali que ganham peso práticas mais cotidianas, como o evento Tempo de Casa e a plataforma de desenvolvimento UniAlelo, exemplos de como reconhecimento, vínculo e crescimento também são sustentação à cultura.

Mas essa analogia não serve apenas para tornar o conceito mais didático. Ela também mostra que uma superfície atraente pode esconder uma base frágil e que nenhuma ação isolada explica, sozinha, a relação de uma pessoa com a empresa. Como resume Carolina, a principal inovação “foi deixar de olhar a experiência do colaborador por iniciativas isoladas e passar a enxergá-la de forma integrada, ao longo de toda a jornada”.

Do retrato ao farol

Para sair da impressão geral e chegar a um diagnóstico utilizável, a área reuniu pesquisas de clima e engajamento, avaliações de liderança, dados do Glassdoor e indicadores produzidos por frentes como Atração de Talentos, Integração, Desenvolvimento, ESG e Comunicação. Cada etapa foi associada a uma das três experiências e classificada por grau de maturidade, permitindo comparar o retrato de 2023 com a atualização de 2025. Carolina Ferreira resume a premissa por trás desse método: “gestão de pessoas sempre terá uma dimensão humana, mas isso não significa que ela precise ser baseada apenas em percepção”.

Ou seja, o diagnóstico não substitui a escuta, mas ajuda a qualificá-la. Ao identificar padrões, validar hipóteses e indicar prioridades, ele dá ao RH uma visão mais ampla sobre o que realmente faz diferença na jornada. “Essa visão integrada também nos ajudou a sair de uma lógica reativa para uma atuação mais estratégica”, complementa Carolina Ferreira. E reforça: “dados não substituem a escuta, a sensibilidade ou a proximidade com as pessoas, mas tornam essas decisões muito mais consistentes”.

Onde a jornada avançou

Com esse diagnóstico em mãos, o RH conseguiu identificar avanços na experiência do colaborador em diferentes momentos da jornada. O processo seletivo alcançou NPS 85, o primeiro dia de onboarding chegou a 91 pontos e a perspectiva positiva no Glassdoor marcou 73. A comunicação interna e entre equipes, antes entre os pontos frágeis, também mudou de patamar após a adoção de feedbacks mais diretos e práticas de comunicação não violenta. O ganho não veio de uma campanha isolada, mas de uma revisão na forma de conversar, discordar e alinhar expectativas, algo que, no cotidiano, pesa tanto quanto qualquer processo.

Foi esse trabalho que colocou a Alelo entre os destaques de Employee Experience na segunda edição do Melhor RH Innovation. Mais do que registrar notas, a companhia institucionalizou um ciclo de observação, escolha e correção. Ao transformar esse acompanhamento em rotina, o RH passou a usar dados para cuidar melhor da experiência do colaborador – não para falar em nome das pessoas, mas para escutá-las com mais precisão e nos momentos certos.

A coerência como legado

No fim, o que aproxima esses cinco projetos tão distintos não é o formato escolhido, mas a coerência que cada um tenta produzir. A experiência do colaborador não se decreta em um mural de valores nem se resolve com uma iniciativa pontual. Ela se forma na repetição dos contatos, decisões e sinais que a empresa oferece ao longo da jornada. Voltando à cena que abriu esta reportagem, é a diferença entre a resposta que chega e a que demora, entre o cuidado “anunciado” e aquele que aparece quando alguém realmente precisa. É nesse intervalo entre promessa e entrega que a inovação realmente sai do papel.

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