Benefícios

Novo cenário para os benefícios corporativos

Pesquisas desenham o caminho trilhado rumo à flexibilidade e revelam a preferência dos colaboradores

de Jussara Goyano em 5 de janeiro de 2023

Desde 2020, as organizações vêm passando por transformações profundas – com consequências definitivas, na previsão de especialistas, para os próximos 10 anos. Modelos de trabalho, administração e negócios tiveram de se adaptar a um isolamento social jamais visto neste século, para que empresas pudessem performar positivamente, mesmo sob um contexto de vulnerabilidade física e emocional de gestores, colaboradores, fornecedores e clientes.

Para os RHs, em particular, de um lado havia a preocupação com a integridade das equipes. Do outro, um olhar sobre aquilo que, na forma de cultura e gestão, fizesse sentido ao momento, ao core da empresa, a todos os envolvidos. Nesse cenário, os benefícios oferecidos aos funcionários receberam especial atenção, como forma de atender às necessidades do isolamento e como tradução do cuidado da empresa com o time.

Foi necessário entender o que ainda tinha nexo nesse pano de fundo: As prioridades entraram em revisão e alguns dos benefícios mais populares – plano de saúde, vale-refeição e vale-transporte, por exemplo –, passaram a operar com complementos e novos formatos, mais flexíveis. O conceito de qualidade de vida foi atualizado para os profissionais, que passaram a valorizar pacotes mais afinizados a suas novas preocupações, que incluem mais tempo livre para lazer, cultura, cuidados com a saúde, a família, e inserem, definitivamente, o home-office na rotina. Auxílios de toda forma deveriam contemplar essa nova perspectiva.

Remanejamento de saldo

Alguns estudos apoiam essa nova visão. Um deles diz respeito aos saldos disponíveis nos benefícios de transporte e alimentação, cujo uso mudou sensivelmente. Estudo global realizado pela Cisco em 2021, com 28 mil pessoas, mostrou uma redução de gastos dos colaboradores com deslocamento, refeições e entretenimento, nessa ordem de grandeza, totalizando uma economia de aproximadamente R$38 mil, no período de um ano, para 70% da amostra. Essa economia impactou sensivelmente o mercado de benefícios, obrigando a uma flexibilização nos valores oferecidos. Às empresas houve oportunidade de otimizar investimentos, avaliando melhor sua marca empregadora e suas estratégias de retenção de talentos, uma vez que a equipe viu a oportunidade de flexibilizar os valores oferecidos na forma de novos benefícios, ou adaptação dos vales já ofertados, permitindo remanejamento de créditos.

“No início da pandemia, não havia porque oferecer um vale transporte regular para os colaboradores, mas sim um auxílio home office, por exemplo”, explica Flavio Sahib, fundador e CEO da JFA Consultoria, especializada em benefícios.  Algumas empresas passaram a oferecer um apoio mensal para pacotes de internet aos colaboradores, outras  um aporte inicial para que o funcionário pudesse transformar sua casa em um escritório com a aquisição de cadeiras, suportes de notebooks, entre outros equipamentos, lembra o executivo. “Agora, as empresas estão dando mais autonomia aos colaboradores e permitindo que eles montem seu próprio pacote de benefícios”, destaca Sahib.

Ainda em 2021, pesquisa da Creditas, fintech que adentrou definitivamente o universo dos benefícios corporativos, já mostrava mudanças nas preferências e percepções dos colaboradores, norteando o investimento em benefícios pelas empresas. Cerca de 78% entendiam que os benefícios eram tão ou mais importantes do que a remuneração. Aproximadamente 25% dos entrevistados que trocaram de empresa nos dois anos anteriores à pesquisa o fizeram por conta do pacote de benefícios. Por fim, 84% dos profissionais ouvidos gostariam de receber seus benefícios em um único cartão, incluindo vale-transporte, refeição, alimentação, cultura, etc. E que pudessem ter flexibilidade no gerenciamento dos créditos. O estudo ouviu 1500 profissionais sob contratação CLT. 

O desafio das empresas de benefícios, sobretudo a Creditas, como conta Viviane Sales, vice-presidente da empresa,   passou a ser desenvolver soluções para ampliar conveniência do usuário no uso do cartão (ou vale eletrônico) bem como do RH na gestão dessas ofertas.  “Sem deixar de lado o acesso a benefícios fiscais com segurança jurídica”, comenta Viviane, em workshop sobre o tema, com a participação da Melhor RH, por ocasião de mudanças recentes nas normas do Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT).  A adaptação das novas modalidades de benefícios às legislações existentes tornou-se um capítulo à parte no atendimento às novas demandas dos negócios, dos modelos de trabalho e dos colaboradores .

Adequação, contudo, inevitável, acredita Fernando Mantovani, diretor-geral da Robert Half para a América do Sul. “Após situações desafiadoras, as pessoas tendem a repensar aspectos importantes de suas vidas”, destaca o executivo, sobre a perspectiva de que apenas bons salários não são mais suficientes para satisfazer um colaborador. “Diante desse novo contexto, as empresas têm de compreender  que o pacote de incentivos é parte da estratégia de negócio”, avalia. No caso das companhias gestoras de benefícios, adaptar-se a isso e auxiliar no cumprimento da legislação também é uma realidade.

Consolidação de preferências

No ano de 2022, a pesquisa “Benefícios: o que mudou” da consultoria, mostrou a flexibilização dos benefícios como tendência, muito embora “vales” tradicionais ainda sejam os preferidos.  Mostrou, ainda, que as empresas ainda têm muito o que se adaptar: 77% dos entrevistados gostariam de mudanças em seus quadros de benefícios. E 99% dos profissionais ouvidos leva em conta esses auxílios para aceitar, ou não, uma proposta de emprego, sendo que 67% gostaria de montar o seu próprio pacote, de acordo com suas necessidades. O estudo contou com a participação de mais de 1500 profissionais de diferentes níveis, setores e áreas de atuação, ouvidos no mês de maio.


Este ano, contudo, os benefícios também entraram em revisão, em função da retomada, ainda que de forma parcial, ao trabalho presencial em muitas empresas. Auxílios financeiros para montar o home-office e incentivos de internet caíram de posição em favor do auxílio combustível, impulsionado pela inflação, e da volta do vale transporte entre os 10 mais oferecidos (veja, abaixo, quadro Benefícios mais oferecidos pelas empresas atualmente).

A preferência dos colaboradores também se voltou aos benefícios mais tradicionais, embora o desejo de flexibilização do pacote em função das necessidades. A maioria das pessoas ouvidas, no entanto, concorda que home-office virou modelo de trabalho e não mais parte do pacote de benefícios, como antes era visto por muitos e ofertado pelas empresas.

“É preciso ter em mente que as preferências sobre como e onde trabalhar são versáteis e particulares, especialmente em um contexto de trabalho híbrido”, lembra Mantovani. Para o executivo, a principal orientação é que as companhias escutem o que os colaboradores têm a dizer, incentivando-os a compartilhar suas experiências e realidades. “É benéfico para ambas partes e colabora para um ambiente de trabalho mais harmônico”, finaliza o diretor-geral da Robert Half. 

Benefícios mais importantes para os profissionais
assistência médica
vale-refeição
vale-alimentação
assistência odontológica
auxílio combustível

Fonte: Robert Half
Benefícios mais oferecidos pelas empresas atualmente
assistência médica
vale-refeição
notebook
assistência odontológica
vale-alimentação 
vale-transporte
celular + chip
estacionamento
auxílio-combustível
apoio psicológico

Fonte: Robert Half

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